8.12.10

gatos, gatas e gatinhos

Andam gatos nas traseiras. A gata só se ouve ao anoitecer. Já sei que antes da Primavera haverá gatinhos a aprender a andar sobre os telhados e antes do Verão vê-los-ei desaparecer. Depois, quando em pleno Agosto me levantar de madrugada, hei-de ver um jovem gato a beber a água que a vizinha do primeiro andar lhes põe numa embalagem de gelado. Nessa altura, vou pensar: olha, lá está o gato que nasceu este Inverno.

6.12.10

laranja

descasquei uma laranja com as mãos e mordi-a; que mais se pode fazer no inverno?

3.12.10

exercícios (nunca mais)

nunca mais como ostras
nunca mais rezei
nunca mais é dia
nunca mais atravessei o rio sem medo
nunca mais chega o correio
nunca mais  choveu como no dia em que o telegrama chegou
nunca mais lá fui
nunca mais ninguém saberá de ti
ou é hoje ou nunca mais

2.12.10

je voudrais que mon amour meure

queria que o meu amor morresse
e a chuva chovesse sobre o cemitério
e sobre mim pelas ruas onde eu andar
chorando aquela que julgou amar-me
Samuel Beckett
trad.:M.E.Cardoso

1.12.10

feriados

Os feriados parecem domingos, disse eu. Castafiori discordou. Os feriados parecem sábados, disse ela. Saí à rua. Concordei. Os feriados parecem sábados, disse eu. Voltei para casa.

30.11.10

deambulação

Quem sabe quando. Quem sabe onde. Espero-te. A vantagem de não sair do mesmo sítio, esta espécie de passerelle, ter diante dos olhos um mundo que se apresenta já feito, a vantagem de não estar dentro é essa distância, essa mentira piedosa de pensarmos que dominamos e sermos dominados, de pensarmos que esperamos e exasperarmos. A chuva não melhora a visão. Decido aniquilar este momento e rodar sobre mim própria. Daqui vejo um prédio azul, e no rés-do-chão uma videira e isso, sim, melhora a minha visão, e vejo quatro calças de ganga a secar no estendal do primeiro andar e isso, sim, melhora a visão, e ouço um grito na rua e isso também melhora a visão. Deixar de pensar e deixar de esperar, e em seu lugar olhar pelas traseiras. Mas sempre no mesmo maldito sítio. A chuva volta. Não ouço nada. Só ouço a chuva. Não vejo nada, só vejo a chuva. Vou recomeçar. Um dia acerta-se.

29.11.10

bilhete simples

Quando o comboio parou na estação da Pampilhosa eu ouvia um samba. Tudo estava em ordem, o comboio cumpria a tabela, o sol aprareceu e desapareceu atrás das nuvens, alguns passageiros tossiram. Mas com Elis Regina não há sossego. Tentei dormir, tapei os olhos com  o cachecol, procurei o ângulo certo entre a cabeça e o ombro. Inutilidades de domingo. "Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós"

26.11.10

crise

fui ao mini-preço e esqueci-me dos cupões; atravessei a rua, estava  a chover; no caminho vi tudo aos tropelões; ó,  deixei cair o doce de framboesa; o prejuízo foi no total um euro e tal e o lucro cessante incalculável

25.11.10

lapsus (1)

Chris Marques

24.11.10

isto não é uma metáfora

Anda um bando de pássaros nas traseiras da minha casa. Observo-os em voo picado sobre os quintais. Fico assim por momentos, observadora de pássaros em dia de greve geral. Depois lembro-me das gatas e fecho a janela.

23.11.10

interrogação logo ao acordar

Que poderemos nós dizer para além das palavras usadas vezes sem fim? É preciso estar sempre a inventar.

22.11.10

falta

sem manteiga não há torradas

19.11.10

world music

Oiço ópera algures. O meu prédio não é muito dado à ópera. Vejamos. O andar de baixo, não desfazendo na ópera, põe Leonard Cohen acima de tudo. O primeiro, está silencioso desde que o cão morreu. No rés-do-chão varia-se bastante; mas não há perigo de confundir a Vitória de Los Angeles com nem eu sei quem, que também de óperas pouco cheiro. O andar de cima, isso sim, eu sei, prefere definitivamente frango no churrasco. E do quinto, não tenho notícias frescas. Mas donde é que virá o raio da música, que acaba de passar-me outra vez pelos ouvidos? Espera lá, espera lá, mas aquilo é a Carmina Burana, pois é, a Carmina Burana, ó se é, e eu quase a lançar-me numa teoria geral sobre o espaço e a multiculturalidade e vai-se a ver e o que estão a ouvir é a Carmina Burana. Por acaso até vem a calhar, até me resolve o enigma, sendo a Carmina Burana, pode vir de qualquer dos andares. Fortune plango vulnera. Olha e agora estou a ouvir o concerto de Aranjuez. Mas esta gente está a passar-se ou quê? Francamente, daqui a nada chega a vez do Rachmaninoff. E onde é que anda o kuduro e o forró?
(reflexão de ontem à noite, eram prá aí dez e meia)

18.11.10

momento

Ou baixo os estores ou páro de escrever. Não quero incomodar as gatas, animais mimados, sim, mas em cativeiro. Não posso tirar-lhes o sol que entra pela janela. E quererei incomodar-me a mim própria? O sol entra pela janela e eu vejo-me reflectida no écran do computador. Agora.

17.11.10

dito de espírito

"- Como tem andado? - diz o cego ao paralítico.
 - Como vê - responde o paralítico ao cego."

16.11.10

dois olhinhos a brilhar

"Já matámos a ratazana", li na parte de trás do envelope. Primeiro facto: onde dantes era o remetente, estava escrito "Já matámos a ratazana". Segundo facto: acordei. Estava a sonhar. Primeira questão, e, talvez, primeira conclusão: o segundo facto põe em causa o primeiro, anula-o, ou torna-o mesmo inexistente, passando por isso a ocupar o lugar do primeiro, quer dizer, passando de segundo para primeiro - e único facto? A verdade é que acordei, não descansada como devia, por alguém ter liquidado a ratazana, mas assustada. Talvez por saber que elas - as ratazanas - existem. Outras informações que poderão, quiça, esclarecer o caso: o recado foi-me deixado pelo primeiro andar; no meu prédio, que eu tenha conhecimento, não foi vista nenhuma ratazana; recentemente duas pessoas das minhas relações disseram-me ter visto ratazanas. Eu própria, há um mês, mês e meio, vi um animal minúsculo, que não reconheci imediatamente, admito, a entrar no Metro. Não era uma ratazana. Era um ratinho. Mesmo assim, senti um sobressalto. Foi um bocado humilhante. Em minha defesa posso dizer que não era uma ratazana mas era como se fosse. Cinzento, lustroso, com dois olhinhos a brilhar no cinzento do chão do metro, era uma ratinho, bem sei, mas raios me partam se não parecia uma ratazana, cinzenta, lustrosa, com dois olhinhos a brilhar no cinzento do chão do metro. São séculos e séculos a encaramo-nos uns aos outros.

15.11.10

advogados

Castafiori virou-se para mim e disse, De todos os homens que conheci o mais fiel tem sido o meu advogado. Disse-o com sinceridade e quando Castafiori quer ser sincera, é sincera. A emoção andou por ali. Isso fez-me recuar quanto ao menu. É que estávamos num restaurante e vi-me obrigada a afastar automaticamente a hipótese de pedir bacalhau. Teria sido uma comparação de mau gosto.

11.11.10

a fitinha

- Viste a minha fitinha? Se calhar perdi-a.
- A do cabelo ? Perdeste, perdeste. Tu não perdes nada.
- Já a tenho desde os 8 anos.
- Desde os 8?!
- E tenho este blusão desde os 13.
- Tchii. Eu já nem a dos 16 tenho.
- Sou muito apegada às cenas.
- Eu sou o contrário. Um dia destes fui ao hifi e li: feminino, 21 anos. Eu nem me reconheço. Continuo a pensar que tenho 16. Fazem de mim o que querem.
- Eu cá não. Dos 16 só mesmo a cena da roupa.
- Já encontraste a fitinha, eu não te dizia? Tu não perdes nada.
- Tinha caído. Vamos.

10.11.10

facebook

Só acreditei quando ele me disse:
- Há gajos de quem eu não seria amigo nem no facebook.

3.11.10

bens

É um bocado estranha esta sensação: parece que os livros nunca me pertencem. E, no entanto, recuso-me a separar-me deles. Quero-os, como meus, mas sinto-os de passagem, em trânsito, como se não me pertencessem. Talvez por isso raramente lhes ponha o meu nome.

1.11.10

poemas de amor

(...)
a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo que as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei
(...)
Samuel Beckett
(1936)
trad.: M.Esteves Cardoso

31.10.10

abrupto

São seis e tal e já é noite escura. A hora mudou. O outono avança em trombas de água e a mim apetece-me um chá que cheire. Alto e pára o baile. A nostalgia aproxima-se.

26.10.10

movimento

"Esta sensação: "Aqui não vou deitar âncora", e logo a seguir sentir como a maré ondulante nos envolve e sustenta."
Franz Kafka
trad.: João Barrento, "Parábolas e Fragmentos"

25.10.10

tradição oral

Convidei Castafiori para jantar. Recusou. Sopa de courgettes com coentros, omelete simples e uma salada de rúcula selvagem. Está bem que o menu era singelo mas quand même. Admirei-me, portanto. Só depois veio a explicação. Castafiori anda numa formação. Em todos os cursos que frequenta, e sabe-se como Castafiori adora manter-se up-to-date, não gosta de faltar. Diz que aprende muito por tradição oral. (As palavras foram dela.)

22.10.10

cansaço

Viveria outra vez
não me atrevo a pôr-lhe um ponto final; interrogo-me?

21.10.10

a aposta

Dois e dois são cinco? Não. Dois e dois são quase cinco. Continua a estar longe de ser exacto. Mas não deixa de ser uma afirmação com futuro, penso eu, pelo menos, com algum futuro. Quem sabe se, um dia, dois mais dois não serão cinco, e ainda que seja uma afirmação arriscada, há nela uma expectativa, não direi própria de uma utopia, mas, vá lá, própria de uma certa abertura de espírito. Em contrapartida, há afirmações que, sendo exactas, escapam a qualquer futuro, como esta: às cinco e  cinco, o príncipe morreu; o príncipe morreu sem chegar a rei e a princesa ficou viúva à hora do chá sem chegar a rainha. É uma afirmação exacta, desesperadamente exacta. Poor girl, comentaram, há amores perfeitos e capelas imperfeitas. É uma afirmação inadequada e, numa certa óptica, de mau gosto. A batata pode ser doce mas a lógica também pode ser uma batata. Se não fosse assim, diríamos, Olha ali está uma laranja amarga, mesmo antes de a provar, e renegaríamos para sempre o princípio in dubio pro reo que, não sendo um princípio citrino, lhe poderá ser aplicável, cum grano salis. É claro que há pessoas que dizem, Olha ali está uma laranja amarga, mesmo antes de a provar. Geralmente esta afirmação é acompanhada por uma aposta. E cá voltamos ao que interessa: há quem aposte que dois e dois são cinco, mas não há quem aposte que dois e dois são quatro. Daí que considere provada a afirmação supra: dois e dois são quase cinco - está longe de ser exacto, mas não deixa de ser uma afirmação com algum futuro.

20.10.10

balança comercial

Tenho um relógio que, para mudar de pilha, precisa de ir à Suiça, Mas porquê?, pergunto eu, Com esta marca é assim, respondem-me. Ah, não sabia. As lentes que uso têm de vir da Alemanha, ou melhor, elas estão cá, depois assinalam as dioptrias com uns risquinhos na superfície das lentes e dizem-me, Agora tem de esperar oito dias. Mas porquê, perguntava eu quando comecei a usar graduação progressiva, e respondiam-me, Têm de ir à Alemanha, Ah, dizia eu. Agora já não digo, Ah. Penso, entre dentes, Vão lá à vossa vida, ó lentes alemãs. As bananas vêm aos cachos do Panamá. Que giro, já tenho ouvido dizer em certas grandes superfícies, como sinónimo de romântico, Ah, o Panamá. O vinagre balsâmico vem de Modena, onde nasceu Enzo Ferrarri e Luciano Pavarotti, vejo no Google. Se eu quisesse continuar, continuaria: o whiskey vem das Ilhas Britânicas, os livros da Amazon, o café de vários lados, etc, etc (fora as coisas que vêm da China, que é quase tudo).
E, se querem saber, eu vim de Gáfete.

19.10.10

suspensão

Cada vez que no café se parte loiça, todos páram, todos riem. Aquele segundinho entre o parar e o rir é a alma do nosso negócio de viver.

18.10.10

vultos

Não vim aqui por nenhuma razão especial. Estou de passagem. Forço-me a estar de passagem. É uma maneira de forçar a rotina. A rotina força-nos e, às vezes, pensamos que podemos simplesmente inverter a situação. É o que eu estou a fazer agora. De uma maneira um tanto pueril, como veremos a seguir.
Os domingos são terríveis para as rotinas. Mas a consciência da rotina raramente chega a tempo de ser planeada e devemos aproveitá-la, mesmo que chegue a um domingo. Seria mesmo um contra senso podermos planeá-la, seria um luxo podermos recusar os domingos. Estou, então, de passagem. É o estado que escolhi para estar contra a rotina. Fui ter a uma estação de comboios. Achei normal. Sentei-me no bar da estação e afastei os óculos dos olhos. Tenho agora os óculos por cima da testa. Não distingo as feições das pessoas. Vejo vultos. Vultos de passagem.

12.10.10

a colcha indiana

A colcha indiana tem elefantes e deuses de pernas cruzadas. A colcha indiana é feita de bocados de pano, unidos com linha da mesma cor (e eu pergunto o que se pergunta quando se olha para coisas feitas à mão: quem os terá unido?). Ao centro, a colcha indiana tem dois pavões e mais acima dois papagaios. Estão todos no mesmo arbusto, dentro do mesmo bocado de pano. Esse bocado é só deles e talvez isso justifique o quão indiferentes estão ao elefante que está de pernas para o ar no bocado ao lado (mas eu também não conheço a Índia e talvez não seja tão raro assim os elefantes andarem de pernas para o ar). O elefante é verde escuro (esse em particular, porque a colcha tem mais elefantes, a Índia não é só surpresa) muito diferente das vacas ou do homem que toca flauta para as vacas ou das nuvens por detrás dos deuses, paradas pelo som da flauta do homem que toca flauta para as vacas. A colcha indiana tem pedacinhos de espelho, que nunca nos deixam esquecer quem somos, e aposto que ainda lá tem as impressões das mãos que a coseram, não sei, em Goa, em Bombaim, na fronteira pasquistanesa, sei lá, ou do outro lado, em Calcutá. A colcha indiana nunca está só, mesmo quando a casa onde está se fecha e a parede onde está escurece, a colcha indiana nunca está só. Por exemplo, agora tem-me a mim a olhar para ela.