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7.9.11

a poesia como arte marcial

nadar num rio de ar, contemplar o oceano que vai para oriente, trepassar o lótus,  pedir ao céu que indique o caminho - retomei as aulas de tai-chi. a porrada precisa de poesia.

7.4.11

o problema das quintas-feiras

O problema das quintas-feiras é que calham a seguir às quartas. Às quartas há aula de tai-chi. Ontem foi quarta. A aula de tai-chi foi sobre murros. Duas horas de murros. Dois tipos de murros. O murro da serpente, a grande sabida,  e o murro do tigre, sempre o maldito tigre. Desenvolvo: o murro da serpente é um murro venenoso: é dirigido à cana do nariz e dado com os nós dos dedos. Estamos entendidos?!  O murro do tigre é bem mais simples: é para partir tudo. Dividem-se em curtos e longos, exactamente murros curtos e longos, ou, se preferirmos, curtos e longos murros. Em qualquer deles, não esticar por completo o braço. Mas never, never. Já vos disse que o tai-chi é uma arte marcial? Não há cá mais ou menos. Não damos um murro mais ou menos, nem um murro é mais ou menos curto, nem fugimos mais ou menos, nem fugimos de mais, nem fugimos de menos. Se fugimos, fugimos, se damos o murro, damos o murro. Assim!

23.3.11

o corvo marinho

Hoje na aula de tai-chi estive a soltar o corvo marinho que há em mim. Um belo corvo marinho a apanhar sol nas asas foi isso que eu fui durante para aí um minuto, mais coisa, menos coisa, o suficiente para ter ficado toda partida.

Passo a explicar. Uma pessoa, isto é, antes de se tornar corvo marinho, tem de se pôr na posição de cavaleiro: afastar as pernas para além da medida-padrão, que é a largura das ancas, alinhar os pés, flectir as pernas, manter o coxis para dentro e sorrir. Em suma, ainda antes de se estar na posição, já o corvo marinho, pelo menos o corvo marinho que há em mim, estava sorridente, sim, mas um nadinha estafado. Depois vêm os braços, ou seja, as asas. Não sei se já repararam mas o corvo marinho não tem as asas esticadinhas como a águia, não, em cada asa do corvo podemos reconhecer um inolvidável triângulo invertido. Visto noutro ângulo, num ângulo mais vulgar, assustadoramente vulgar, significa que para além das pernas, também os braços ficam a doer como o caraças. Mas vale a pena. A estampa de corvo marinho em que de um momento para o outro nos transformamos vale o sacrifício do cavaleiro em triângulo. E tudo debaixo de uma ideia de harmonia para que o universo tende, penso, fechando os olhos. E foi desta forma que, enquanto corvo marinho, tive oportunidade de apanhar sol na confluência das asas, lá atrás, num ponto exacto da coluna. Mais ou menos aqui? Não, não, não é mais acima ou mais abaixo, nem mais para um lado ou mais para o outro, mas aqui, exactamente aqui. O tai-chi é uma arte marcial, minha senhora, não é mais ou menos aqui, ou ali, é aqui.

Só a precisão é bela, mesmo o caos é preciso, concluo, antes que o corvo marinho adormeça ao som das vagas do atlântico norte.

28.2.11

a aula de tai-chi

Hoje vamos fazer a brincadeira dos cinco animais, disse o professor de tai-chi. Começamos pelo tigre.

E o tigre subiu a montanha; o tigre desceu a montanha; o tigre caçou; o tigre fez a presa em frangalhos e comeu-a, e palitou os dentes, isto já sou eu a inventar, porque é nesta parte do rosnar do felino, seguido do felino a bater os dentes, que eu sou bastante fraquinha, valha-me Deus. Tenho a dizer que não sou nada  má a avançar montanha acima, e ninguém se ri de mim a descer a montanha. Mas, quando a caça começa, passo a sofrível e, ai, quando preciso de cravar as garras na presa e rasgá-la sem piedade, a piedade toma conta de mim e está tudo estragado. Sinceramente, não percebo porquê. Eu sei que há um tigre dentro de mim. É esse tigre, esse tigre para onde todos os olhares se dirigem, que eu persigo. Porém, esse tigre escapa-me. A mim que sou o próprio tigre. Como pode o tigre escapar ao tigre?

A verdade é bastante prosaica: sou muito melhor a fazer o grou, imagine-se, a pôr a ponta da patinha no chão; nesta altura o peso está 100% na outra pata e eu equilibro-me; levanto voo com alguma desenvoltura; e pouso outra vez a patinha no chão. Voilà! É certo que, a dado momento, é preciso dar um pontapé para a frente ao mesmo tempo que as asas batem síncronas e o movimento não sai completamente harmonioso mas, vá, contemporizemos, não está completamente mal, não estando completamente bem. Voo.

Agora com o que eu embirro mesmo é com o passo da serpente. Não gosto da serpente. Não gosto, não gosto, não gosto. Não me vale de nada gostar ou não. O destino vem e contraria-me, logo a mim que não gosto de ser contrariada: safo-me com algum garbo a fazer os movimentos da serpente. Mas tudo isso eu suportaria - até suportaria ser grou com patinhas de porcelana, até suportaria ser uma serpente à espreita -, se, por momentos, conseguisse ser, sem sombra de dúvida, sem qualquer favor, o animal que há em mim: o tigre. Não, não quero que me compreendam, não quero que me ajudem, não quero me me deixem o caminho livre, não. Eu sou um tigre dos pés à cabeça.

11.11.10

a fitinha

- Viste a minha fitinha? Se calhar perdi-a.
- A do cabelo ? Perdeste, perdeste. Tu não perdes nada.
- Já a tenho desde os 8 anos.
- Desde os 8?!
- E tenho este blusão desde os 13.
- Tchii. Eu já nem a dos 16 tenho.
- Sou muito apegada às cenas.
- Eu sou o contrário. Um dia destes fui ao hifi e li: feminino, 21 anos. Eu nem me reconheço. Continuo a pensar que tenho 16. Fazem de mim o que querem.
- Eu cá não. Dos 16 só mesmo a cena da roupa.
- Já encontraste a fitinha, eu não te dizia? Tu não perdes nada.
- Tinha caído. Vamos.