8.12.08

a capa do livro

Assim que lá chegou arrependeu-se e abandonou o livro em cima do edredon. "Meu Deus, o frio que está". Estava frio. Diz-se que as noites frias convidam à leitura. Deveria acrescentar-se, pensou, se os quartos estiverem aquecidos. As noites frias são boas se forem quentes, ora aí está. Esta reflexão deixou-a satisfeita. Deixou também a cabeça de fora e apagou a luz.

Na escuridão tentou lembrar-se do nome da cidade que estava na capa, em letras impressas sobre o cabelo do autor, nariz afilado, a olhar para nós. Gosta desse olhar, direito à objectiva, que jeito que dão as objectivas. Dispensam-na de interpretar, pelo menos de interpretar olhares, e assim escapar aos sentimentos de inveja e pavor que lhe provocam as pessoas que têm sempre uma interpretação engatilhada. Ela preferia confiar nas objectivas e no olhar que, diga-se, pelo menos naquele caso, eram uma e a mesma coisa.

Virou-se. Ouviu ao longe uns pneus desesperados. Abriu os olhos. Sempre achou que aquela passadeira estava mal colocada. Fechou os olhos. A cidade começava por w., lembrou-se ou pensa que se lembrou, como veremos. Acha que sorriu. É um bocado estúpido sorrir na escuridão. Nem para a própria sombra se sorri. É desolador. É estúpido. Este pensamento esgotou-a e adormeceu.

Acordou às 6 da manhã. Acordava pontualmente às 6 da manhã. Os vizinhos do andar superior acordavam cedo, às 6 da manhã. Ouviu por cima da sua cabeça o soalho a ranger, uma cama a ranger, pés, pés com botas a ranger. São emigrantes. Não têm culpa. Às vezes também se levantava às 6 da manhã, mesmo sem ser emigrante, custava-lhe, os pés gelados e sem culpa percorriam o corredor, cujo soalho rangia e, nesses dias, é possível que no andar inferior alguém acordasse às 6 da manhã. É a cadeia alimentar. Não há maneira de evitar esse tal soalho das 6 da manhã. Acendeu a luz, olhou para o lado e irritou-se: a tal cidade não começava por w. e talvez nem sequer cidade fosse. Começava por z.

Pegou no livro de capa amarela e leu o primeiro aforismo:

O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada ao alto, mas rente ao chão. Parece antes destinar-se a fazer tropeçar do que a ser percorrida.

Por baixo estava o aforismo no original: der wabre Weg geht e não sei que mais, não tinha paciência, passou à frente. Fosse como fosse de nada serviria: não sabia alemão.
Leu os aforismos todos seguidos. Chegou ao 37 ou ao 38, sim, talvez tivesse chegado ao 38. Os aforismos provocavam-lhe esta estranha reacção: punha-se a lê-los todos de seguida e a dada altura começava a saltitar, acabando por espreitar o último, como se fosse o fim. Neste caso foi a partir do 37 ou 38 que começou a saltitar. Escorregou no 67. Daí para o 94. Voltou atrás: 43. Ah, o 43., o 43. No 5 fechou os olhos.

Pousou o livro no edredon e o gato sentou-se sobre a capa: Franz Kafka, "Aforismos" "(escritos na localidade histórica de Zurau)", Assírio&Alvim. Havia uma vinheta colada que o gato raspou com a garra: "125 anos do nascimento de Franz Kafka". De olhos fechados, sorriu. Pôs-se a imaginar Kafka com 125 anos. Era possível. Fechou mais os olhos e imaginou Tolstoi com 180 anos. Imaginar Tolstoi com 180 anos é mais complicado, é muito complicado. E Rosseau ? Com 296? Querem ver que não sou capaz de imaginar Rosseau com 296 anos? Estava quase a adormecer. Mas adormecer não é desistir. A ver se não se esquecia de amanhã começar pelo Rosseau, depois Caravaggio, depois Dante, depois.