DSC01191© fatima ribeiro2007
18.1.07
humanamente falando
não há forma de morrer que não nos gele
Feroz é a sombra e viva é sempre a faca.
Blas de Otero
Feroz é a sombra e viva é sempre a faca.
Blas de Otero
17.1.07
assim falou (2)
Interessa-me trabalhar no cinema, ainda que pondo o cinema em causa.
Assim falou o realizador Hugo Vieira a propósito da estreia de um objecto audiovisual estreado em salas de cinema sob o título de Body Rice. Se tivesse explicado, por si ou por interposta pessoa, porque raio é que para pôr o cinema em causa precisa de um subsídio público de 450 mil euros teria sido perfeito.
Assim falou o realizador Hugo Vieira a propósito da estreia de um objecto audiovisual estreado em salas de cinema sob o título de Body Rice. Se tivesse explicado, por si ou por interposta pessoa, porque raio é que para pôr o cinema em causa precisa de um subsídio público de 450 mil euros teria sido perfeito.
assim falou (1)
(a propósito de notícias sobre ida para um clube de futebol do Dubai durante meia dúzia de meses, a ganhar milhões, biliões e triliões de euros ou dólares ou mesmo rupias, assim falou Luís Figo, em entrevista a La Gazzette dello Sport, citada pelo Público, na edição de 6ª feira. L.F. é um dos 100 grandes portugueses:)
Já ganhei o suficiente e não preciso de um novo contrato. Estava à procura de uma solução suave. Não queria retirar-me imediatamente. Assim posso jogar mais cinco ou seis meses de futebol mais ligeiro.
Já ganhei o suficiente e não preciso de um novo contrato. Estava à procura de uma solução suave. Não queria retirar-me imediatamente. Assim posso jogar mais cinco ou seis meses de futebol mais ligeiro.
15.1.07
14.1.07
prédio sonâmbulo
O meu prédio move-se durante a noite. É difícil, por vezes, encontrar um minuto, um simples minuto de sossego. Ontem, por exemplo. Comecemos pelo 4º andar, o andar acima do meu. Vago há meses e meses, com obras há meses e meses, foi finalmente ocupado. À hora de jantar, o cheiro a gás inquietava quem passava nas escadas.
Minutos antes, soube depois, tinha sido ouvida a trepidação de uma garrafa de gás butano a ser arrastada escada acima. A imprevidência foi então atribuída não aos suspeitos do costume - o 5º andar - mas aos novos locatários. Enquanto o 2º andar negociava a rendição ao gás natural, o 5º andar passa em fila indiana com uma parte da mobília. Primeiro, o tio mais velho, o da precária, com as portas de um armário, depois a avó com um neto pelo mão, um rapazinho encantador que com a outra mão raspava um bocado de esferovite na parede, depois um dos adolescentes com uma árvore da borracha maior que ele e, fechava o cortejo, a filha do meio, a falar com alguém ao telemóvel (que segundo a vizinha do 1º, deveria ser o namorado brasileiro, aquele que trabalha na telepizza). Vindo de cima, um choro de criança, com certeza o irmão do raspador, um puto de um ano e tal mas muitos quilómetros em todos os quarteirões vizinhos. De repente abre-se uma porta e o choro chega mais intenso. É uma mulher, a mãe das crianças, que grita: "Não se esqueçam de ir buscar o frango".
Há várias semanas que o 5º andar se está a mudar. Como e onde transportarão, por exemplo, os armários, não sei. Os vasos, os tupperwares, sapatos, guarda-chuvas, bancos de cozinha, almofadas, tapetes e outros utensílios sei: são transportados no carrinho do bebé. Encontrei-os um dia destes em mais uma corrida rua fora. Segundo o velhote do 1º, marido da vizinha do 1º, eminência que gere como ninguém toda a informação pertinente e impertinente da nossa freguesia (e das freguesias limítrofes, acrescente-se, assim o impõe a nossa situação de fronteira para a zona oriental), segundo a vizinha do 1º, dizia eu, o 5º andar está a mudar-se ali para o pé do Lidl, não sei se está a ver aquelas casas, a seguir aos prédios altos. Não, não estou, mas é como se estivesse. E pensei para comigo quão esquisito é o movimento anunciado: então vão viver mesmo para o lado da polícia? Mas fechei-me em copas, em copas e dentro de casa. E fiz eu se não bem. Lá mais para o fim da noite pude ouvir um concerto vindo do 2º andar, onde havia uma espécie de rave. A Rosa fazia anos. Imagine-se quantos anos fez a Rosa. Vinte. Oh, destino implacável, oh Deus dos desenganos, porque me abandonaste? A vida tem de ser assim? "Nada é tão necessário ao homem como um par de lágrimas/ prontas a cair no desespero".
Minutos antes, soube depois, tinha sido ouvida a trepidação de uma garrafa de gás butano a ser arrastada escada acima. A imprevidência foi então atribuída não aos suspeitos do costume - o 5º andar - mas aos novos locatários. Enquanto o 2º andar negociava a rendição ao gás natural, o 5º andar passa em fila indiana com uma parte da mobília. Primeiro, o tio mais velho, o da precária, com as portas de um armário, depois a avó com um neto pelo mão, um rapazinho encantador que com a outra mão raspava um bocado de esferovite na parede, depois um dos adolescentes com uma árvore da borracha maior que ele e, fechava o cortejo, a filha do meio, a falar com alguém ao telemóvel (que segundo a vizinha do 1º, deveria ser o namorado brasileiro, aquele que trabalha na telepizza). Vindo de cima, um choro de criança, com certeza o irmão do raspador, um puto de um ano e tal mas muitos quilómetros em todos os quarteirões vizinhos. De repente abre-se uma porta e o choro chega mais intenso. É uma mulher, a mãe das crianças, que grita: "Não se esqueçam de ir buscar o frango".
Há várias semanas que o 5º andar se está a mudar. Como e onde transportarão, por exemplo, os armários, não sei. Os vasos, os tupperwares, sapatos, guarda-chuvas, bancos de cozinha, almofadas, tapetes e outros utensílios sei: são transportados no carrinho do bebé. Encontrei-os um dia destes em mais uma corrida rua fora. Segundo o velhote do 1º, marido da vizinha do 1º, eminência que gere como ninguém toda a informação pertinente e impertinente da nossa freguesia (e das freguesias limítrofes, acrescente-se, assim o impõe a nossa situação de fronteira para a zona oriental), segundo a vizinha do 1º, dizia eu, o 5º andar está a mudar-se ali para o pé do Lidl, não sei se está a ver aquelas casas, a seguir aos prédios altos. Não, não estou, mas é como se estivesse. E pensei para comigo quão esquisito é o movimento anunciado: então vão viver mesmo para o lado da polícia? Mas fechei-me em copas, em copas e dentro de casa. E fiz eu se não bem. Lá mais para o fim da noite pude ouvir um concerto vindo do 2º andar, onde havia uma espécie de rave. A Rosa fazia anos. Imagine-se quantos anos fez a Rosa. Vinte. Oh, destino implacável, oh Deus dos desenganos, porque me abandonaste? A vida tem de ser assim? "Nada é tão necessário ao homem como um par de lágrimas/ prontas a cair no desespero".
13.1.07
12.1.07
uma tia menos dotada
Dizia o pai da Rosário sobre uma tia menos dotada:
- Tem uma cabeça muito granítica. Mas sem mica nem feldspato - só quartzo, só quartzo.
- Tem uma cabeça muito granítica. Mas sem mica nem feldspato - só quartzo, só quartzo.
11.1.07
pergunta Prufrock
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
T.S.Eliot
Have the strength to force the moment to its crisis?
T.S.Eliot
10.1.07
bancada central
Acabou o "Bancada Central" , um programa desportivo que a TSF transmitia há uma data de anos. Dedicado ao futebol, os ouvintes intervinham telefonicamente sobre os temas diários e sempre sobre o seu clube e contra os rivais. Tudo sob o esforço, que eu sempre imaginei telúrico mas que aparentava ser tranquilo, do jornalista Fernando Correia, voz inconfundível de relatos de domingos e noites europeis. Uma vez fui à TSF dar uma entrevista sobre a porcaria dum filme que eu tinha feito e quando ia a sair vi o Fernando Correia, sentado numa das secretárias. Pedi para lhe ser apresentada. Não sei se me fica bem confessar as verdadeiras razões que me levaram a querer cumprimentar o Fernando Correia. Mas já passaram muitos anos, o crime prescreveu, o estádio da Luz veio abaixo e acima, o "bancada central" acabou e ainda cheira a Natal . Vou ser condescendente comigo própria: quem eu queria conhecer mesmo era o Aurélio Márcio, então um dos meus mentores em análise de partidas, que eu aprendi a ler n' "A Bola" e que me consolava a ouvir na rádio. O Aurélio Márcio não estava. Deus não dorme. Fiquei sem conhecer o Aurélio Márcio mas nunca esqueci aquela tarde na Avenida de Ceuta.
9.1.07
uma noite no cinema
Ao ver "A Rainha" revisitei os dias em que eu, estrangeira e republicana, chorei pela princesa morta. Não é preciso dizer mais nada. Nunca compreenderei esta minha reacção.
8.1.07
A lingerie de Madame Castafiori
Madame Castafiori é intransigente em muita coisa. Não é uma questão política, nem sei se chega a ser uma questão moral. É mais uma questão de timbre. Um pequeno exemplo musical: a lingerie. Madame Castafiori não consente outra que não o manto diáfano da verdade. Só algodão, cem por cento algodão, de preferência vindo directamente do Egipto, o mesmo Egipto por onde andou Eça de Queiróz e T. E. Lawrence. Para que conste e não restem dúvidas, nenhum outro tecido lhe serve, incluindo a seda. À seda e aos costumes disse nada. É uma questão de timbre. Lingerie, só de algodão. Nas cores branca ou preta. Quanto à cor de carne tem de a escolher pessoalmente.
6.1.07
indecisão
Dei uma volta pelo moleskine que a Rita me ofereceu há 3 anos e verifico que também ali me espera uma lista de livros para ler. "Perspectiva Histórica da Ficção Portuguesa das Origens ao século XX" e "A Vida Sexual dos Selvagens" encabeçam a lista. Não sei por onde começar.
5.1.07
4.1.07
o gato de Montaigne
Pensamos que estamos a brincar com o gato, mas como é que sabemos que não é o gato que está a brincar connosco ? É por estas e por outras que o Montaigne ficou na História e eu passarei à História. Enfim, mais pelas outras que por estas.
3.1.07
ementa
É quase noite. O autocarro apitou por causa de um carro mal estacionado e eu ainda tenho os apitos na cabeça. Não me apetece nada jantar pescada cozida com apitos nos ouvidos. E se eu mudasse para uma omelete com salsa e arroz de ervilhas ?
A única certeza: um vinho em promoção.
A única certeza: um vinho em promoção.
2.1.07
um sonho
Os gatos estão ao sol, o horóscopo não deixa de ser prometedor mas a parede continua lá e não consigo passar, não consigo passar. Com as mãos a cheirar a tangerina, abro a janela.
1.1.07
30.12.06
My 2006
Em Janeiro: a 22 o Professor é eleito Presidente e a 29 neva por todo o país;
em Fevereiro: a Caixa Geral de Depósitos recusa-me um empréstimo de 5 mil euros, a menos que a fiadora, cliente da CGD e de cuja conta consta um crédito mensal que daria para pagar 3 vezes a minha prestação, mude a sua outra conta do BPI para a CGD;
em Março, o BCP lança uma oferta pública de aquisição sobre o BPI, que este considera "hostil"; apesar disto andar tudo ligado, não creio que tenha relação com os acontecimentos do mês anterior;
em Abril, passo as férias da Páscoa a escrever "Sul-Sudoeste" que um juri do Icam veio posteriormente a considerar uma grande bosta; ok, eu não digo que seja um grande, grande argumento, digo que é apenas um bom argumento e disso está o cinema português cheio, não é ? Tanto de uns, como de outros, aliás;
Maio é o mês em que faço anos e dou uma grande festarola em minha casa com tequilla, entrecosto temperado com hortelã e canela e um bolo de aniversário com 49 velinhas;
em Junho entro para a tropa e aí me mantive grande parte do Verão, na rodagem do recém-estreado "20,13";
em Julho continuo na tropa e quase não dou pelo bombardeamento de Israel ao Líbano durante 34 dias; em contrapartida, dou pelo mundial de futebol e um coronel explica-me porque é que o Cristiano Ronaldo não pode chegar ao Olimpo: falta-lhe a 3ª velocidade; na tropa tudo se explica e isto está muito bem explicado;
em Agosto acabo a tropa e começo a pintar a casa; compro ainda uma, mais uma, estante Bill; mas não é só para mim que o Verão não é de sonho: Plutão, por exemplo, vê-se de um dia para o outro exonerado do sistema solar;
em Setembro: a 19 é nomeado um novo Procurador-Geral e a 28 é eleito um novo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça; mais uma vez fico para trás;
em Outubro faço a batalha de Aljubarrota; é caso para dizer que só me falta La Lys;
em Novembro, Ségolène Royal é escolhida para candidata às eleições presidenciais francesas; como eu não sou francesa - não se pode ter os defeitos todos - não posso considerar a escolha uma desfeita; e Cesariny vive a última madrugada;
em Dezembro é agora e acabei. Morra o Dantas, pim!
em Fevereiro: a Caixa Geral de Depósitos recusa-me um empréstimo de 5 mil euros, a menos que a fiadora, cliente da CGD e de cuja conta consta um crédito mensal que daria para pagar 3 vezes a minha prestação, mude a sua outra conta do BPI para a CGD;
em Março, o BCP lança uma oferta pública de aquisição sobre o BPI, que este considera "hostil"; apesar disto andar tudo ligado, não creio que tenha relação com os acontecimentos do mês anterior;
em Abril, passo as férias da Páscoa a escrever "Sul-Sudoeste" que um juri do Icam veio posteriormente a considerar uma grande bosta; ok, eu não digo que seja um grande, grande argumento, digo que é apenas um bom argumento e disso está o cinema português cheio, não é ? Tanto de uns, como de outros, aliás;
Maio é o mês em que faço anos e dou uma grande festarola em minha casa com tequilla, entrecosto temperado com hortelã e canela e um bolo de aniversário com 49 velinhas;
em Junho entro para a tropa e aí me mantive grande parte do Verão, na rodagem do recém-estreado "20,13";
em Julho continuo na tropa e quase não dou pelo bombardeamento de Israel ao Líbano durante 34 dias; em contrapartida, dou pelo mundial de futebol e um coronel explica-me porque é que o Cristiano Ronaldo não pode chegar ao Olimpo: falta-lhe a 3ª velocidade; na tropa tudo se explica e isto está muito bem explicado;
em Agosto acabo a tropa e começo a pintar a casa; compro ainda uma, mais uma, estante Bill; mas não é só para mim que o Verão não é de sonho: Plutão, por exemplo, vê-se de um dia para o outro exonerado do sistema solar;
em Setembro: a 19 é nomeado um novo Procurador-Geral e a 28 é eleito um novo Presidente do Supremo Tribunal de Justiça; mais uma vez fico para trás;
em Outubro faço a batalha de Aljubarrota; é caso para dizer que só me falta La Lys;
em Novembro, Ségolène Royal é escolhida para candidata às eleições presidenciais francesas; como eu não sou francesa - não se pode ter os defeitos todos - não posso considerar a escolha uma desfeita; e Cesariny vive a última madrugada;
em Dezembro é agora e acabei. Morra o Dantas, pim!
29.12.06
Bacalhau constipado
Coloque as postas de bacalhau demolhado a assar em brasas e retire-as do lume várias vezes, mergulhando-as em água fria misturada com vinho branco. Continue até as postas estarem assadas e folhadas como um livro. regue-as com azeite.
(Cozinha de Lisboa e seu Termo, de Alfredo Saramago)
receita transcrita de "Culinário Assírio & Alvim 2007", uma prenda deste Natal
(Cozinha de Lisboa e seu Termo, de Alfredo Saramago)
receita transcrita de "Culinário Assírio & Alvim 2007", uma prenda deste Natal
28.12.06
27.12.06
parede branca
Hoje na Biblioteca sentei-me numa mesa encostada a uma janela de guilhotina. Dali posso ver a frontaria da Igreja. Mais à direita, ergue-se o que parece ser um depósito de água. Já me explicaram o que é mas eu esqueço-me sempre. Qualquer coisa a ver com as antenas que o prolongam para o céu.
Em baixo os carros deslizam no alcatrão sem repararem no caminho manhoso que há logo no início da descida. Não sei exactamente onde levará esse caminho, possivelmente a um beco quase sem saída, onde eu imagino que moram muitos dos que pertencem a uma espécie de sobreviventes com quem eu mantenho uma espécie de conta-corrente: os que por vergonha não voltaram para as terras de origem. É ali que vejo um homem que transporta uma garrafa de gás aos ombros. À sua frente, um cão preto com coleira abre-lhe caminho aos saltos. Em nada se distingue dos cães que na sua terra de origem abrem caminho aos saltos.
Por baixo da janela de guilhotina há uma cabine telefónica onde tenho visto pessoas a telefonar, normalmente falam em língua estrangeira. Hoje não está lá ninguém, o que não deixa de ter a sua lógica: há gente por aí que gastou os impulsos todos na noite de Natal. A mim, ainda me sobra a parede em frente, a grande parede branca, com um grafiti quase reduzido a uma assinatura, a de alguém chamado Cajó. Essa parede branca ocupa todo o lado inferior esquerdo do enquadramento da janela. Fica assim justificada a sua importância.
Mas não era nada disto que eu queria contar. O que eu queria contar é que na estante ao lado da mesa encostada à guilhotina, está em evidência um livro: Souvenirs d'Alcobaça et Batalha, de William Beckford, numa tradução francesa, que eu já conhecia. E foi com o sorriso que acompanha o reconhecimento das coisas agradáveis que eu peguei no livro e o folheei como quem baralha um baralho de cartas. Dei por mim a ter saudades desse tempo, do tempo em que conheci William Beckford. Interroguei-me sobre que tempo era esse e a resposta apareceu-me com alguma surpresa sem dificuldade: era um tempo em que eu tinha esperança.
Em 1989 o livro custava 90 francos. Era o nº19 da Collection Romantique. Quanto a William Beckford, visitou os mosteiros de Batalha e Alcobaça em Junho de 1794, durante a sua segunda temporada no nosso país, entre Outubro de 1793 e Novembro de 1795. Boas Festas, Cajó.
Em baixo os carros deslizam no alcatrão sem repararem no caminho manhoso que há logo no início da descida. Não sei exactamente onde levará esse caminho, possivelmente a um beco quase sem saída, onde eu imagino que moram muitos dos que pertencem a uma espécie de sobreviventes com quem eu mantenho uma espécie de conta-corrente: os que por vergonha não voltaram para as terras de origem. É ali que vejo um homem que transporta uma garrafa de gás aos ombros. À sua frente, um cão preto com coleira abre-lhe caminho aos saltos. Em nada se distingue dos cães que na sua terra de origem abrem caminho aos saltos.
Por baixo da janela de guilhotina há uma cabine telefónica onde tenho visto pessoas a telefonar, normalmente falam em língua estrangeira. Hoje não está lá ninguém, o que não deixa de ter a sua lógica: há gente por aí que gastou os impulsos todos na noite de Natal. A mim, ainda me sobra a parede em frente, a grande parede branca, com um grafiti quase reduzido a uma assinatura, a de alguém chamado Cajó. Essa parede branca ocupa todo o lado inferior esquerdo do enquadramento da janela. Fica assim justificada a sua importância.
Mas não era nada disto que eu queria contar. O que eu queria contar é que na estante ao lado da mesa encostada à guilhotina, está em evidência um livro: Souvenirs d'Alcobaça et Batalha, de William Beckford, numa tradução francesa, que eu já conhecia. E foi com o sorriso que acompanha o reconhecimento das coisas agradáveis que eu peguei no livro e o folheei como quem baralha um baralho de cartas. Dei por mim a ter saudades desse tempo, do tempo em que conheci William Beckford. Interroguei-me sobre que tempo era esse e a resposta apareceu-me com alguma surpresa sem dificuldade: era um tempo em que eu tinha esperança.
Em 1989 o livro custava 90 francos. Era o nº19 da Collection Romantique. Quanto a William Beckford, visitou os mosteiros de Batalha e Alcobaça em Junho de 1794, durante a sua segunda temporada no nosso país, entre Outubro de 1793 e Novembro de 1795. Boas Festas, Cajó.
23.12.06
água fresca
Começei ontem a ver o Lost, era uma e tal da manhã. Não tão intensivamente como a Erica, que encontrei faz agora um mês acampada na sua sala de estar, com vista para uma trepadeira prodigiosa e vasos de poejos e alecrim dourado. Durante dois dias ninguém a conseguiu de lá tirar. Nem a trepadeira, nem o poejo, nem o Miguel, nem os apelos insistentes das suas lindas crianças, nem o olhar inesperado da gata Celeste. Very interessante. O Lost. Mas não tenho tempo para conversas. Estou aqui na minha ilha e vou começar o 7º episódio.
22.12.06
to be or not to be
Madame Castafiori tem percorrido todos os presépios de Lisboa, para ser mais exacta, quase todos os presépios de Lisboa. Uma questão, talvez duas, a motiva: qual é o lado do burro? Qual o lado da vaca? Não há consenso. Nuns o burro está do lado direito, noutros a vaca.
Em que é que ficamos, é a pergunta que Madame Castafiori coloca a si própria todos os dias ao levantar e para a qual continua sem resposta todos os dias quando se deita.
Tudo começou com uma visita ao presépio da Madre de Deus. O presépio da Madre de Deus não tem vaca nem burro.
Em que é que ficamos, é a pergunta que Madame Castafiori coloca a si própria todos os dias ao levantar e para a qual continua sem resposta todos os dias quando se deita.
Tudo começou com uma visita ao presépio da Madre de Deus. O presépio da Madre de Deus não tem vaca nem burro.
5.12.06
4.12.06
A Rainha
P: Helen Mirren é espantosa. Como é que conseguiu aquela perfomance?
R: Porque é que não lhe pergunta como é que ela o fez? Eu não faço a mínima ideia. Sempre esperei que fosse boa no papel, mas quando me apareceu nas filmagens parecia mesmo a Rainha e fiquei absolutamente atónito. Não sei qual é o processo interno que ela seguiu. O que é que pensa, que eu estive com a Helen no quarto de vestir a escolher-lhe as roupas? Seria chocante...
(de uma entrevista a Stephan Frears ao Expresso, edição de sábado passado)
R: Porque é que não lhe pergunta como é que ela o fez? Eu não faço a mínima ideia. Sempre esperei que fosse boa no papel, mas quando me apareceu nas filmagens parecia mesmo a Rainha e fiquei absolutamente atónito. Não sei qual é o processo interno que ela seguiu. O que é que pensa, que eu estive com a Helen no quarto de vestir a escolher-lhe as roupas? Seria chocante...
(de uma entrevista a Stephan Frears ao Expresso, edição de sábado passado)
3.12.06
2.12.06
lambidela de gato
Relatório da conversação entre mim e Cristina Castafiori no Messenger, após convite desta a sua irmã mais velha, que este blogue celebrizou como Madame Castafiori, a sensível Madame Castafiori:
Fátima dit : (19:26:48)
Então ontem Castafiori gostou dos lombinhos?
Fátima dit : (19:27:04)
de porco preto(pl)
Cristina Castafiori dit : (19:28:50)
ficou enjoada , não era o que ela esperava, disse que não tinha gostado, mas o prato, havias de ter visto, limpinho que nem lambidela de gato
Fátima dit : (19:26:48)
Então ontem Castafiori gostou dos lombinhos?
Fátima dit : (19:27:04)
de porco preto(pl)
Cristina Castafiori dit : (19:28:50)
ficou enjoada , não era o que ela esperava, disse que não tinha gostado, mas o prato, havias de ter visto, limpinho que nem lambidela de gato
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