14.1.07

prédio sonâmbulo

O meu prédio move-se durante a noite. É difícil, por vezes, encontrar um minuto, um simples minuto de sossego. Ontem, por exemplo. Comecemos pelo 4º andar, o andar acima do meu. Vago há meses e meses, com obras há meses e meses, foi finalmente ocupado. À hora de jantar, o cheiro a gás inquietava quem passava nas escadas.

Minutos antes, soube depois, tinha sido ouvida a trepidação de uma garrafa de gás butano a ser arrastada escada acima. A imprevidência foi então atribuída não aos suspeitos do costume - o 5º andar - mas aos novos locatários. Enquanto o 2º andar negociava a rendição ao gás natural, o 5º andar passa em fila indiana com uma parte da mobília. Primeiro, o tio mais velho, o da precária, com as portas de um armário, depois a avó com um neto pelo mão, um rapazinho encantador que com a outra mão raspava um bocado de esferovite na parede, depois um dos adolescentes com uma árvore da borracha maior que ele e, fechava o cortejo, a filha do meio, a falar com alguém ao telemóvel (que segundo a vizinha do 1º, deveria ser o namorado brasileiro, aquele que trabalha na telepizza). Vindo de cima, um choro de criança, com certeza o irmão do raspador, um puto de um ano e tal mas muitos quilómetros em todos os quarteirões vizinhos. De repente abre-se uma porta e o choro chega mais intenso. É uma mulher, a mãe das crianças, que grita: "Não se esqueçam de ir buscar o frango".

Há várias semanas que o 5º andar se está a mudar. Como e onde transportarão, por exemplo, os armários, não sei. Os vasos, os tupperwares, sapatos, guarda-chuvas, bancos de cozinha, almofadas, tapetes e outros utensílios sei: são transportados no carrinho do bebé. Encontrei-os um dia destes em mais uma corrida rua fora. Segundo o velhote do 1º, marido da vizinha do 1º, eminência que gere como ninguém toda a informação pertinente e impertinente da nossa freguesia (e das freguesias limítrofes, acrescente-se, assim o impõe a nossa situação de fronteira para a zona oriental), segundo a vizinha do 1º, dizia eu, o 5º andar está a mudar-se ali para o pé do Lidl, não sei se está a ver aquelas casas, a seguir aos prédios altos. Não, não estou, mas é como se estivesse. E pensei para comigo quão esquisito é o movimento anunciado: então vão viver mesmo para o lado da polícia? Mas fechei-me em copas, em copas e dentro de casa. E fiz eu se não bem. Lá mais para o fim da noite pude ouvir um concerto vindo do 2º andar, onde havia uma espécie de rave. A Rosa fazia anos. Imagine-se quantos anos fez a Rosa. Vinte. Oh, destino implacável, oh Deus dos desenganos, porque me abandonaste? A vida tem de ser assim? "Nada é tão necessário ao homem como um par de lágrimas/ prontas a cair no desespero".