Hoje vamos fazer a brincadeira dos cinco animais, disse o professor de tai-chi. Começamos pelo tigre.
E o tigre subiu a montanha; o tigre desceu a montanha; o tigre caçou; o tigre fez a presa em frangalhos e comeu-a, e palitou os dentes, isto já sou eu a inventar, porque é nesta parte do rosnar do felino, seguido do felino a bater os dentes, que eu sou bastante fraquinha, valha-me Deus. Tenho a dizer que não sou nada má a avançar montanha acima, e ninguém se ri de mim a descer a montanha. Mas, quando a caça começa, passo a sofrível e, ai, quando preciso de cravar as garras na presa e rasgá-la sem piedade, a piedade toma conta de mim e está tudo estragado. Sinceramente, não percebo porquê. Eu sei que há um tigre dentro de mim. É esse tigre, esse tigre para onde todos os olhares se dirigem, que eu persigo. Porém, esse tigre escapa-me. A mim que sou o próprio tigre. Como pode o tigre escapar ao tigre?
A verdade é bastante prosaica: sou muito melhor a fazer o grou, imagine-se, a pôr a ponta da patinha no chão; nesta altura o peso está 100% na outra pata e eu equilibro-me; levanto voo com alguma desenvoltura; e pouso outra vez a patinha no chão. Voilà! É certo que, a dado momento, é preciso dar um pontapé para a frente ao mesmo tempo que as asas batem síncronas e o movimento não sai completamente harmonioso mas, vá, contemporizemos, não está completamente mal, não estando completamente bem. Voo.
Agora com o que eu embirro mesmo é com o passo da serpente. Não gosto da serpente. Não gosto, não gosto, não gosto. Não me vale de nada gostar ou não. O destino vem e contraria-me, logo a mim que não gosto de ser contrariada: safo-me com algum garbo a fazer os movimentos da serpente. Mas tudo isso eu suportaria - até suportaria ser grou com patinhas de porcelana, até suportaria ser uma serpente à espreita -, se, por momentos, conseguisse ser, sem sombra de dúvida, sem qualquer favor, o animal que há em mim: o tigre. Não, não quero que me compreendam, não quero que me ajudem, não quero me me deixem o caminho livre, não. Eu sou um tigre dos pés à cabeça.
28.2.11
27.2.11
porto tawny
Almoçei tardiamente com Castafiori. Um domingo de sol convida a atrasos e bifes de perú com mostarda. Tenho andado arredada do mundo. Felizmente, nas nossas vidas, há sempre quem repare essas falhas. Informam-nos sobre a nação árabe, informam-nos sobre as manifestações previstas, informam-nos sobre os pibs, informam-nos sobre a queda da deutsche telekom. Raramente se ficam por aí. A ignorância enfraquece-nos. Retira-nos poder e, até, capacidade de reacção. E ei-los a perorar sobre palo alto, maquinistas da cp, a margem de progressão de nico gaitán, para não falar no amor, que é onde, de uma maneira ou outra, todos os almoços de domingo acabam. Assim foi com Castafiori.
Depois de me informar sobre o estado da nação árabe, as manifestações previstas, os pibs deste e do outro mundo e, também, sobre a queda da deutsche telekom, desatou a falar sobre a violência doméstica. Segundo Castafiori a violência doméstica tem a sua causa no alcoolismo. Eu tenho grandes dificuldades em ouvir teorias gerais (admito, no entanto, que tenho grande facilidade em produzir teorias gerais). Por isso, quando ouço teorias gerais, por delicadeza entretenho-me a observar os pormenores da cena. E foi assim que verifiquei o seguinte: Castafiori perorava sobre violência doméstica com um cálice de vinho do porto na mão direita. Como era domingo, e era almoço, e estava sol, optei por um humor sem consequências e disse:
- Se este almoço fosse ter ao youtube, não sei como é que você se ia safar, um discurso sobre violência doméstica acompanhado a vinho do porto.
Castafiori respondeu-me pausadamente, apenas traída quando, ao pegar no guadanapo, se ouviram as pulseiras no pulso esquerdo:
- E quem é que se preocupa com o youtube quando tem na mão um tawny envelhecido? O importante é a imagem. Aprenda que eu não vivo sempre.
E eu aprendi. Ao jantar, bebi um cálice de porto branco, para comemorar a vitória do Benfica no último segundo. É assim a chama imensa.
Depois de me informar sobre o estado da nação árabe, as manifestações previstas, os pibs deste e do outro mundo e, também, sobre a queda da deutsche telekom, desatou a falar sobre a violência doméstica. Segundo Castafiori a violência doméstica tem a sua causa no alcoolismo. Eu tenho grandes dificuldades em ouvir teorias gerais (admito, no entanto, que tenho grande facilidade em produzir teorias gerais). Por isso, quando ouço teorias gerais, por delicadeza entretenho-me a observar os pormenores da cena. E foi assim que verifiquei o seguinte: Castafiori perorava sobre violência doméstica com um cálice de vinho do porto na mão direita. Como era domingo, e era almoço, e estava sol, optei por um humor sem consequências e disse:
- Se este almoço fosse ter ao youtube, não sei como é que você se ia safar, um discurso sobre violência doméstica acompanhado a vinho do porto.
Castafiori respondeu-me pausadamente, apenas traída quando, ao pegar no guadanapo, se ouviram as pulseiras no pulso esquerdo:
- E quem é que se preocupa com o youtube quando tem na mão um tawny envelhecido? O importante é a imagem. Aprenda que eu não vivo sempre.
E eu aprendi. Ao jantar, bebi um cálice de porto branco, para comemorar a vitória do Benfica no último segundo. É assim a chama imensa.
26.2.11
fim do inverno
Metade da tarde, ao sol como uma escocesa; a outra metade cheia de stress como uma palerma. Pela ordem inversa.
25.2.11
dos pés à cabeça
Dói-me os pés e a cabeça. Isto por fora. Por dentro, uma espécie de caos, a que chamarei mental para não perder mais tempo. Como disse, dói-me a cabeça. É possível que não seja a cabeça. Se me doesse a cabeça, saberia onde a tenho. Não é o caso. Restam-me os pés.
Pelo menos, era o que eu pensava até ter começado a escrever e, por isso, escrevi Dói-me os pés. Verifico, porém, que, se assim fosse, os teria bem assentes na terra. Não é o caso. Conclusão: não me dói nada.
Isto por fora. Por dentro, um caos difuso. Mergulho nele neste exacto instante, com um pensamento quase terapêutico: de todas as palavras que utilizei até agora a que eu mais gosto é a palavra "porém". Gosto muito da palavra "porém", seguida de uma vírgula.
Também gosto de "pelo menos".
Pelo menos, era o que eu pensava até ter começado a escrever e, por isso, escrevi Dói-me os pés. Verifico, porém, que, se assim fosse, os teria bem assentes na terra. Não é o caso. Conclusão: não me dói nada.
Isto por fora. Por dentro, um caos difuso. Mergulho nele neste exacto instante, com um pensamento quase terapêutico: de todas as palavras que utilizei até agora a que eu mais gosto é a palavra "porém". Gosto muito da palavra "porém", seguida de uma vírgula.
Também gosto de "pelo menos".
10.2.11
AGONIA
Irei pelas ruas até cair morta de cansaço
saberei viver sozinha e reter nos olhos
cada rosto que passa e continuar a ser a mesma.
Esta frescura que sobe e me busca as veias
é um despertar que em manhã nenhuma sentira
tão real: sinto-me simplesmente mais forte
que o meu corpo e um arrepio mais frio
acompanha a manhã.
Longe vão as manhãs em que tinha vinte anos.
E amanhã, vinte e um: amanhã sairei para a rua,
lembro-me de cada pedra da rua e das nesgas do céu.
A partir de amanhã as pessoas ver-me-ão outra vez
de pé e caminharei direita e poderei parar
e mirar-me nas montras. Nas manhãs do passado,
era jovem e não sabia, nem sabia sequer
que era eu que passava – uma mulher, dona
de si mesma. A rapariguinha magra que fui
despertou dum pranto que durou anos:
agora é como se esse pranto nunca tivesse existido.
E desejo só cores. As cores não choram,
são como um despertar: amanhã as cores
voltarão. Cada mulher sairá para a rua,
cada corpo uma cor – e até as crianças.
Este corpo vestido de vermelho claro
após tanta palidez voltará à vida.
Sentirei à minha volta deslizarem os olhares
e saberei que sou eu: olhando à volta,
ver-me-ei no meio da multidão. Em cada nova manhã,
sairei para a rua em busca das cores.
CESARE PAVESE
Trabalhar Cansa, Cotovia, 1998
trad.:Carlos Leite
7.2.11
"Os Filhos de Teresa"
Se o passado é a matéria da memória, o futuro é o seu tempo. A memória serve-nos para viver e serve-nos para sobreviver. Por esta ou por outra ordem. É preciso não morrer para poder morrer. O inverso também é verdadeiro.
Amanhã no Teatro Nacional D.Maria II, coordenada por mim, LEITURA ENCENADA de "Os Filhos de Teresa", uma peça de Sandra Pinheiro, com Catarina Avelar e Laura Soveral e a participação de 4 alunos da Act (João Canto, Gilberto Rosa, Niuscha, Joana Chandellier). No Salão Nobre, às 19 horas.
1.2.11
gama anti-envelhecimento
Comprou um reafirmante facial, um creme de dia, um creme de noite, uma emulsão hidro-lípida, uma espuma de limpeza, um gel de contorno de olhos, um creme contorno lábios, um creme contorno olhos e uma ampola de vapor facial. Tudo gama anti-envelhecimento. Apesar disso, envelheceu. Deus nunca está contente.
31.1.11
pão de rala
Castafiori foi ao Alentejo e visitou a bela cidade de Évora. Voltou com uma lembrança que jurou ser-me expressamente destinada. Sensibiliza-me que Castafiori pense em mim. Por isso agradeci e fingi que não dei pela falta de metade do pão de rala nem pela falta das azeitonas de maçapão escurecidas em cacau e que, segundo a descrição que acompanhava a embalagem, fez as delícias do jovem D. Sebastião. E de Castafiori, acrescento eu. Assim cresce A Lenda que Embeleza a História. Rua do Cicioso, número 47.
28.1.11
pausa
está a chover e eu a ver
(tenho actualmente os dias muito ocupados, tanto que, ao contrário das alturas em que estou em rodagens, nem fotografias consigo publicar; a principal razão é uma boa razão - vou realizar uma curta em meados de Fevereiro - mas aqui fica, de qualquer modo, este aviso à navegação :)
(tenho actualmente os dias muito ocupados, tanto que, ao contrário das alturas em que estou em rodagens, nem fotografias consigo publicar; a principal razão é uma boa razão - vou realizar uma curta em meados de Fevereiro - mas aqui fica, de qualquer modo, este aviso à navegação :)
19.1.11
6.1.11
preparação para exame
O futuro é uma parede, continuou
o professor: agora vamos substituir
a palavra futuro e alguém respondeu:
a morte é uma parede, muito bem,
pode sentar-se, disse o professor,
vamos substituir a palavra parede:
cheia de confiança, escrevi
no quadro, o futuro é a morte.
Ninguém se admirou
quando chumbei no exame
de lógica e geometria. Só eu
por ainda estar viva
contrariamente às previsões.
o professor: agora vamos substituir
a palavra futuro e alguém respondeu:
a morte é uma parede, muito bem,
pode sentar-se, disse o professor,
vamos substituir a palavra parede:
cheia de confiança, escrevi
no quadro, o futuro é a morte.
Ninguém se admirou
quando chumbei no exame
de lógica e geometria. Só eu
por ainda estar viva
contrariamente às previsões.
5.1.11
3.1.11
1.1.11
entre o último dia do ano e o primeiro dia do ano
foi um prazer, digo-o sem qualquer problema
é uma questão de educação
mas hoje já é 2011
vejo-o anunciado por todo o lado
e daqui a cem anos
terão passado cem anos
será 2111
e isso ninguém anunciou
para quem nasceu em 1957 são contas fáceis de fazer
e para quem não nasceu
também
é uma questão de educação
mas hoje já é 2011
vejo-o anunciado por todo o lado
e daqui a cem anos
terão passado cem anos
será 2111
e isso ninguém anunciou
para quem nasceu em 1957 são contas fáceis de fazer
e para quem não nasceu
também
30.12.10
singing in the rain
Esperava o toner para uma impressora, encomendado na net, e recebi uma pequena sombrinha amarela, graciosa e infantil. O toner passou por Vila Nova de Famalicão, soube depois. Mas na altura em que o soube já o toner estava em Puerto de Santa Maria, Cadiz. O laser e a fantasia andam à solta na Península Ibérica, pensei, mais o dia e o mundo pertence-lhes. É o mercado. Don't worry, disseram-me. Isso teve em mim uma acção libertadora. Imediatamente me imaginei a receber um mail de Dunedim, estado de Otago, Nova Zelândia: your toner is so nice, you can stand under my umbrella.
29.12.10
28.12.10
alegria passageira
Ontem ao cair da noite, a alameda cheirava a relva cortada. Dei quatro voltas e fiquei sem fôlego.
27.12.10
dia de natal
Ali estava ele na estação. Parecia nervoso. E se ela já tivesse chegado? E se ela não tivesse esperado? Desde sempre ouvira histórias sobre mulheres. Caprichosas, cruéis, infantis. As mulheres não esperavam. Mas mesmo que essas garras de veludo fossem excluídas dos cálculos, as mulheres esperavam, sim, mas em casa. As mulheres não esperavam em estações de comboios. Era uma espécie de jogo. E agora ali estava ele, nervoso, a contar os passos no cais, os olhos a fugirem para o relógio de minuto a minuto. E se ela já tivesse chegado? Finalmente ouviu o aviso, o comboio procedente, etc., etc., circulava com atraso. Terá esta voz rouca que anunciava, a que parecia faltar o ar, evitado um crime passional no dia mais celebrado no mundo ocidental?
25.12.10
boas festas
Lá em cima, na minha terra, tenho mil metros à volta da casa, já lhe tinha falado disso, lá em cima, ao pé de Aveiro, tenho mil metros quadrados à volta da casa. Tenho lá 10 macieiras - golden, starking e reineta, mas a maioria é golden, tenho pelo menos umas cinco golden, em dez, 'tá a ver, é metade -, tenho 3 pereiras, 1 tangerineira, que pus lá o ano passado, nunca pensei que pegasse, 2 laranjeiras, 3 figueiras, 6 marmeleiros, tudo se dá naquela terra, e ainda são mil metros quadrados. Olhe, tenho uma figueira tão grande, tão grande, as raízes vão daqui até onde está aquele carro encarnado, não sei se está a ver, que grande figueira. Já não posso com figos, é que já nem os posso ver, quanto mais comer. Vou mandá-la cortar, para a Páscoa vou mandá-la cortar. E já que estamos com esta conversa, sabe quem é o maior produtor mundial de maças? Eu digo-lhe, a China, meu amigo, a China.
23.12.10
Marcar como lida.
"Escrever é descobrir um segredo e comunicá-lo."
Maria Zambrano.
Marcar como lida.
"Nos habitons notre corps bien avant de le penser."
Albert Camus.
Marcar como lida.
"Porque razão, quando alguém pensa matar-se, se imagina morto, não para si próprio mas para os outros?"
Luigi Pirandello.
Marcar como lida.
"Where I am there is no one but me, who am not."
Samuel Beckett
Marcar como lida.
"O batom deixa acima de tudo uma nódoa gordurosa; logo, trate da gordura primeiro."
Guia da Limpeza de Nódoas
Marcar como lida.
Feliz Natal!
Maria Zambrano.
Marcar como lida.
"Nos habitons notre corps bien avant de le penser."
Albert Camus.
Marcar como lida.
"Porque razão, quando alguém pensa matar-se, se imagina morto, não para si próprio mas para os outros?"
Luigi Pirandello.
Marcar como lida.
"Where I am there is no one but me, who am not."
Samuel Beckett
Marcar como lida.
"O batom deixa acima de tudo uma nódoa gordurosa; logo, trate da gordura primeiro."
Guia da Limpeza de Nódoas
Marcar como lida.
Feliz Natal!
21.12.10
cavalo e cavaleiro
A criança brinca com um cavalo sobre a mesa do café. Cabe-lhe na mão fechada. Mas a criança fá-lo deslizar num infindável trote, contorna chávena e pires, contorna inclusive uma migalha de torrada, o pacote de açúcar aberto, os dedos da avó ao lado do jornal. A mesa torna-se escassa e cavalo e cavaleiro avançam a galope e escalam a parede ao lado da mesa. Mas eis que algo se avista. A criança encosta a orelha à parede e escuta em silêncio. Cá para mim eram índios.
20.12.10
Merry Christmas, Madame Castafiori!
Cá e lá c'est noel. Comprei um paté de nozes e vinagre balsâmico ao preço do vinho do porto. No dia seguinte, senti-me culpada. Tudo me pareceu triste, ao acordar. A roupa estupidamente estendida, as ondas que, nestes dias, se formam no alcatrão e que as rodas dos carros lançam contra as pessoas nos passeios, as laranjas húmidas expostas à porta do chinês, os pombos recolhidos entre os andares, tudo imagens a invandir o meu triste cérebro, nesta cidade temporariamente triste, onde as pessoas abrem obedientes os guarda-chuvas, como se dissessem, Se a nossa única certeza - o sol - nos abandona, a esperança ou o desespero deixam de fazer parte das nossas vidas. Foi com este estado de espírito que telefonei a Castafiori. Castafiori foi condescendente. Disse para eu não pensar na chuva nem nas paragens dos autocarros. Disse-me também para eu não pensar no preço dos chocolatinhos com trufas, que me esqueci de mencionar acima. Para Castafiori, só uma grande falta de prática ou uma completa ausência de sentido social poderia justificar a culpa que me assaltou ao amanhecer. "Pensar nos preços não lhe faz nada bem", concluiu, e acrescentou após breve pausa,"mas não serei eu quem a vai censurar, é monótono ser sempre pobre". Merry Christmas, Castafiori.
17.12.10
a partilha de informação
- então parece que descobriram que a mãe era culpada
- não me diga
- sim, descobriram, ai, como é que se chama, acho que foi por satélite, mas os ingleses já sabiam
- por isso é que não queriam deixar lá ir a judiciária portuguesa nem que eles entrassem, agora passou-me, como é que aquilo se chama?
-facebook?
-não, mas daqui a bocadinho já me lembro, olhe, sabe uma coisa, eu digo que foi ela, cá para mim foi ela
-acha?
- estava bêbada e naquele desespero sufocou a miúda
- não me diga
- sim, descobriram, ai, como é que se chama, acho que foi por satélite, mas os ingleses já sabiam
- por isso é que não queriam deixar lá ir a judiciária portuguesa nem que eles entrassem, agora passou-me, como é que aquilo se chama?
-facebook?
-não, mas daqui a bocadinho já me lembro, olhe, sabe uma coisa, eu digo que foi ela, cá para mim foi ela
-acha?
- estava bêbada e naquele desespero sufocou a miúda
16.12.10
to swim
Hoje, ao pequeno-almoço estrelei um ovo, convencida que nesse gesto estava o início de uma bela amizade com o espírito inglês e um modo seguro de conjugar qualquer verbo irregular. Não percebo porque é que nada disso aconteceu. Bom, mas o dia ainda não acabou.
15.12.10
post instantâneo
Ontem à noite, disse para mim própria, Não me vou deitar, sem escrever um post. De modo que este é o post escrito ontem à noite, e que não passou daqui. Por falta de inspiração? Por excesso de dever? Adormeci e acordei com igual falta de fundamentos. E agora basta. Não vou dizer nada que possa ser usado contra mim.
14.12.10
13.12.10
fiado
Disse, Eu já não escrevo versos. Passei o resto da manhã com a frase na cabeça. Até que, ao entrar num café, percebi tudo. Encostado à box da tvcabo, li num azulejo, Aqui não se vende fiado, que é como quem diz, Aqui não se escreve versos, tal como ele tinha dito, como se dissesse, Aqui não se vende fiado.
12.12.10
chama imensa
Saí à rua. Da janela, já vira o céu cinzento, e uma calçada enegrecida por uma espécie de chuva que caía, e na grande rua perpendicular, os carros a passarem sorrateiros. Saí cinzenta, resignada, com as mãos nos bolsos do blusão de penas. Ao virar da esquina, um homem com um boné do Benfica. Lembrei-me que hoje há jogo a eliminar. A malta anda chateada, mas há alturas em que se tem de sair à rua assim, com a porcaria do boné e conquistar o mundo, e começar a conquistá-lo ali mesmo, à esquina da rua.
10.12.10
The Great Day
Viva a revolução e mais tiros de canhão!
Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo a pé.
Viva a revolução e o canhão que voltou!
Os mendigos mudaram de lugar, o chicote ficou.
W.B.Yeats
9.12.10
o 158
Aí há uns tempos largos, ligo a televisão num sábado à noite e ouço isto já a caminho da cozinha: "- Que belo toiro de Veiga Teixeira". Volto para trás. Vejo primeiro um número, depois umas patas, depois uma cabeça imponente. Olho e concordo comigo mesma, Que belo toiro que é este 158. Mas eu sou pessoa para ver imperfeições em tudo e vi imediatamente que os cornos do touro estavam tortos, estavam um bocado afastados, pelo menos aos olhos duma leiga. Pensei, ó 158, esse par de cornos ainda te vai dar problemas. Mas imediatamente discordei de mim mesma: se, seja como for, o 158 vai morrer dali a bocado, que diferença pode fazer os cornos estarem um bocado tortos? Nisto o cavaleiro crava uma farpa no animal, não sei se se diz assim, farpas, touro, farpas, Ramalho, farpas, farparemos, farparás. Estava eu nestas divagações e vejo o animal andar por ali um bocado à toa. É uma coisa que me incomoda nas touradas. Depois percebi. O cavaleiro tinha desaparecido. Aumentei o som da televisão. O cavaleiro tinha ido mudar de cavalo. Mudar de cavalo? Olhei para o 158 enquanto ouvia o comentador, O toiro aguenta perfeitamente mais um ou dois ferros. E eu pensei, e então o cavalo, não aguenta? Olhei para o 158 pela última vez, interrogando-me estupidamente, Para que serve a beleza, 158? Mudei de canal.
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