18.5.10
3.5.10
como eu gosto de cozinhar
se há coisa que me dá prazer é cozinhar; gosto particularmente de passar por uma receita no jornal e fazê-la nesse dia; foi isso que fiz sábado e hoje, segunda-feira; fiz cogumelos de paris à grega e linguine com espargos, ervilhas e limão, quer dizer, fazer não fiz, mas fiz uma coisa parecida: se não havia linguine e os espargos estavam a um preço impossível que culpa é que eu tenho? (também não havia hortelã); só foi pena foi ter exagerado no limão; para a próxima fica melhor; acho eu.
30.4.10
confusão madrugadora
Ao estender a roupa numa madrugada quente, olhou para baixo e, do 3º andar, viu um rato no pátio de cimento. Só depois percebeu que era um pássaro. Isto não é nada poético.
29.4.10
ar abafado
está abafado, o ar cheio de pombos, e daqui vejo os segundos correr no cronómetro do relógio com o interesse de quem tem que fazer uma data de coisas e não sabe por onde começar; todavia, se voltar a olhar para lá, para a cronómetro desarrumado, não deixarei de perguntar: e nunca se cansa? o tempo nunca se cansa.
27.4.10
registo
Abro a janela e as gatas não aparecem. Preferem o edredon da cama. Vou tirá-lo hoje, o Verão está a chegar.
24.4.10
indie
foi ao cinema e perdeu um brinco. ficou muito arreliada. dá alvíssaras a quem o encontrar. era preto.
19.4.10
inícios (25)
Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames." Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O ESTRANGEIRO
Albert CAMUS
O ESTRANGEIRO
Albert CAMUS
9.4.10
"se eu pudesse desamar"
Se eu pudesse desamar
a quem me sempre desamou,
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar,
a quem sempre coita deu.
Pero da Ponte
lido em "Direito e Literatura", almedina, 2010
a quem me sempre desamou,
e podess'algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu pudesse coita dar,
a quem sempre coita deu.
Pero da Ponte
lido em "Direito e Literatura", almedina, 2010
8.4.10
inventário (6)
um compact flash, de 256mb, usado na minha primeira máquina digital, uma coolpix 2000, um rádio philips em portalegre comprado, onde eu oiço agora o pomar das laranjeiras, que voz, e sempre a janela da gata, a minha vera, na minha frente
7.4.10
inventário (5)
comprimidos revestidos (ainda válidos), um relógio (com cronómetro) made in china, um mapa (de áfrica) a cair da parede e tudo lá fora me espera esta manhã (penso com optimismo)
6.4.10
inventário (4)
sangue seco, sangue antigo, acumulação de pó, um lápis faber-castell mordido na ponta por um gato entediado, mais um post-it que diz "gravar a paixão segundo s.mateus"
5.4.10
domingo de páscoa
finalmente é primavera e adormeci na relva da gulbenkian. era domingo de páscoa ontem à tarde. havia famílias e namorados, patos em terra e pombos a esvoaçar, também havia rapazes atrás dos mosquitos junto ao lago e meninas com panamás que caiam das cabeças quando corriam. acordei com o sol a descer das oliveiras, nessa altura já tinha ouvido várias vezes o samba de uma nota só. apanhei o metro e duas estações depois entrei em casa - são os benefícios da ampliação da linha vermelha.
30.3.10
mensagem em vinte e duas palavras
no calendário este é o dia quem sabe um dia que possa valer por dois vezes dois vezes dois dias assim assim
29.3.10
Deus nos lírios
sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet, olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.
pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.
RENATA CORREIA BOTELHO
RESUMO, a poesia de 2009
edição Assírio&Alvim
de Monet, olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.
pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.
RENATA CORREIA BOTELHO
RESUMO, a poesia de 2009
edição Assírio&Alvim
28.3.10
26.3.10
24.3.10
pas de poème
Pas de poème sans accident, pas de poème qui ne s'ouvre comme une blessure, mais qui ne soit aussi blessant. Tu apelleras poème une incantation silencieuse, la blessure aphone que de toi je désire apprendre par coeur.
Jacques Derrida, "Che cos'è la poesia?"
citado em "Século de Ouro, antologia da poesia portuguesa do século XX"
Jacques Derrida, "Che cos'è la poesia?"
citado em "Século de Ouro, antologia da poesia portuguesa do século XX"
19.3.10
aviso (2 - correios)
"Por ausência do destinatário não foi possível proceder-se à entrega de objecto urgente". Que pena. Logo hoje que esperava receber o teu coração.
18.3.10
aviso (1- água)
"Estimado Cliente, informamos que devido à realização de trabalhos na rede de distribuição, o fornecimento de água será interrompido temporariamente entre as 14 e as 18 horas. Apesar dos esforços desenvolvidos para concluir os trabalhos no período previsto, este pode ser reduzido ou prolongado sem novo aviso." Eram 17h e 40. Ao ler o aviso na porta do prédio, uma sede imensa assaltou-o, ali, à porta do prédio, ao ler o aviso: e se os trabalhos se atrasassem, apesar dos esforços? Está sempre a acontecer, atrasarem-se os trabalhos está sempre a acontecer, é da natureza do trabalho exactamente isso: estar sempre a acontecer e atrasar-se.
Entrou no café da esquina e pediu uma imperial. Mas não havia. Pediu uma mini. Mas não havia. Pediu heineken, não havia, pediu carlsberg, não, não havia. Desesperado, pediu uma superbock de lata. Não havia. Só de garrafa. Ou então de 50 cl. Mas há cristal. Não. E sagres ? Sagres, sim, de 50 cl, sim, senhor, havia. Sabe, estamos à espera da distribuição. Há dias assim. Toda a gente chega aqui e pede uma imperial, e depois acaba a imperial, pedem minis, e depois acabam as minis, pedem médias, sagres, superbock, acaba a sagres, acaba a superbock e assim sucessivamente. E um copo de água? Um copo de água como? Pode-me dar um copo de água? Água? A água está cortada, a epal andou aí a distribuir avisos em todos os prédios, não viu o aviso? Mas tenho aqui água do luso, luso e formas luso: fambroesa, chá verde, limão. E fastio, tem? Fastio, não tenho, tenho vitalis, tenho pedras, tenho serra da estrela. E tenho luso. E formas luso: fambroesa, chá verde, limão. Que horas são? 18h02. Já há água? Na torneira? Não. Era o que eu pensava. É da natureza do trabalho. Está sempre a acontecer. Dê-me uma sagres de 50 cl. Uma sagres de 50cl? O que é que quer que eu lhe faça? Daqui a nada nem isso tem. Olhe, já há água, não quer o copo de água? Agora já pedi a sagres.
Entrou no café da esquina e pediu uma imperial. Mas não havia. Pediu uma mini. Mas não havia. Pediu heineken, não havia, pediu carlsberg, não, não havia. Desesperado, pediu uma superbock de lata. Não havia. Só de garrafa. Ou então de 50 cl. Mas há cristal. Não. E sagres ? Sagres, sim, de 50 cl, sim, senhor, havia. Sabe, estamos à espera da distribuição. Há dias assim. Toda a gente chega aqui e pede uma imperial, e depois acaba a imperial, pedem minis, e depois acabam as minis, pedem médias, sagres, superbock, acaba a sagres, acaba a superbock e assim sucessivamente. E um copo de água? Um copo de água como? Pode-me dar um copo de água? Água? A água está cortada, a epal andou aí a distribuir avisos em todos os prédios, não viu o aviso? Mas tenho aqui água do luso, luso e formas luso: fambroesa, chá verde, limão. E fastio, tem? Fastio, não tenho, tenho vitalis, tenho pedras, tenho serra da estrela. E tenho luso. E formas luso: fambroesa, chá verde, limão. Que horas são? 18h02. Já há água? Na torneira? Não. Era o que eu pensava. É da natureza do trabalho. Está sempre a acontecer. Dê-me uma sagres de 50 cl. Uma sagres de 50cl? O que é que quer que eu lhe faça? Daqui a nada nem isso tem. Olhe, já há água, não quer o copo de água? Agora já pedi a sagres.
15.3.10
inventário (3)
duas colheres de prata por arear, mais uma faca de sobremesa, também de prata, mais um guardanapo de papel, que sobrou do último natal, pronto a usar
13.3.10
inventário (2)
há uma gata à janela e outra atrás do computador, e no papapeito um furador de quatro furos
12.3.10
inventário (1)
há um livro a desfazer-se, colado a fita-cola, e letras douradas que não cedem - é um dicionário de língua portuguesa que comprei na feira da ladra nem eu sei quando; há ao lado um livro com nuvens na capa, para que nos dias em que o céu da janela está baço o possa abrir sem remorsos de qualquer espécie - é a colectânea de poesia da assírio& alvim
10.3.10
noivado
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos
abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não
serem felizes.
É o que faz a miopia.
Mário-Henrique Leiria
abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não
serem felizes.
É o que faz a miopia.
Mário-Henrique Leiria
9.3.10
ortografia
tudo o que sei é francamente decepcionante; talvez o novo acordo ortográfico melhore o estado das coisas, quando decepção passar obrigatoriamente a deceção deixará de ser uma ilusão perdida ou, pelo menos, poderá deixar de parecer
8.3.10
(...) O Anjo da Casa
(...)
"Matar o Anjo da Casa fazia parte das tarefas da mulher escritora. (...) O Anjo estava morto; o que restava agora? Poderíeis talvez dizer que o que restava era um objecto simples e comum - uma mulher jovem num quarto e um tinteiro. Por outras palavras, agora que ela se tinha livrado da falsidade, a mulher tinha apenas de ser ela própria. Ah! Mas o que significa "ser ela própria"? Isto é, o que significa ser mulher? Asseguro-vos que não sei. E tão pouco acredito que o saibais."
(...)
" Contar a verdade sobre as minhas próprias experiências enquanto corpo"
(...)
"Ainda virá longe o tempo em que a mulher se possa sentar a escrever um livro sem descobrir um novo fantasma para matar ou um rochedo para demover do seu caminho."
(...)
"Os homens ficam chocados se uma mulher diz o que sente (tal como Joyce o fez). No entanto, a literatura que está sempre a cerrar cortinas não é literatura. Tudo o que temos deve ser exprimido - mente e corpo - um processo de incrível dificuldade e perigo."
(...)
Virginia Wolf
"Matar o Anjo da Casa fazia parte das tarefas da mulher escritora. (...) O Anjo estava morto; o que restava agora? Poderíeis talvez dizer que o que restava era um objecto simples e comum - uma mulher jovem num quarto e um tinteiro. Por outras palavras, agora que ela se tinha livrado da falsidade, a mulher tinha apenas de ser ela própria. Ah! Mas o que significa "ser ela própria"? Isto é, o que significa ser mulher? Asseguro-vos que não sei. E tão pouco acredito que o saibais."
(...)
" Contar a verdade sobre as minhas próprias experiências enquanto corpo"
(...)
"Ainda virá longe o tempo em que a mulher se possa sentar a escrever um livro sem descobrir um novo fantasma para matar ou um rochedo para demover do seu caminho."
(...)
"Os homens ficam chocados se uma mulher diz o que sente (tal como Joyce o fez). No entanto, a literatura que está sempre a cerrar cortinas não é literatura. Tudo o que temos deve ser exprimido - mente e corpo - um processo de incrível dificuldade e perigo."
(...)
Virginia Wolf
6.3.10
5.3.10
Deixa-me dar-te o verão
O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras
José Tolentino Mendonça
1.3.10
mensagem em vinte e uma palavras
matéria antimatéria partícula antipartícula para cada partícula existe uma antipartícula átomo antiátomo era aqui que eu queria chegar ou não pergunto
26.2.10
Subscrever:
Mensagens (Atom)