Castafiori trabalhou até tarde. Só lhe restava, no caminho para casa, comprar um frango assado numa loja popular. Ou isso ou não jantava. Castafiori desceu à terra e entrou numa loja popular. Enquanto esperava pelo frango, viu o homem do balcão pôr-lhe à frente um pires transbordante de batatas fritas: - Quer ter a fineza de provar estas batatas?
Sabe-se como Castafiori é sensível às palavras ditas, aos pequenos incómodos, aos gestos facultativos e, porque não dizê-lo, às batatas fritas. E intimamente pensou, como mais tarde me veio a revelar: teria comido todas as batatas fritas deste mundo. E foi envolvida por esta mistura de sentimentos, onde a reconciliação terrena e o favor divino coexistem, que Castafiori chegou a casa com o frango, as batatas e a recordação de uma gentileza inesperada, tudo bens encontrados a uma sexta-feira, numa loja popular, pouco faltava para as dez da noite. O telefonema que me fez terá sido então uma espécie de homenagem ? Ignorou-o mas o certo é que o fez. Claro que só o fez depois de comer o frango e as batatas fritas. Todo? Não, sobraram as asinhas, disse com um riso adolescente.
11.10.10
5.10.10
Dedicatória
Aos carbonários, aos marinheiros, aos doutores republicanos, aos operários, aos suicidas, aos que estiveram na rotunda, ao que tiveram medo e sobretudo aos que não tiveram.
4.10.10
love
A rapariga tinha escrito nas costas do casaco branco: love, lo em cima, ve em baixo. Como subtítulo, dispostas no limite inferior, li ainda estas palavras: love me I love you. Primeiro sentou-se o namorado, depois ela e eu vi-os, na mesa ao lada da minha: cada qual comeu metade de uma sandes de ovo com salsicha, ele bebeu leite com chocolate, ela uma água natural. Suponho que por estar de dieta.
1.10.10
passado
Quando é que deixamos de pertencer a um sítio? Como é que sabemos que aquele sítio já não é a nossa casa? Não sei. E, todavia, se entrarmos nesse sítio, o corpo vai dizer-nos, aos gritos ou em tímidos sussurros, diz-nos que nos tornámos passado. O corpo raramente se engana.
30.9.10
29.9.10
tintas
Quantas vezes escrevo só por causa da tinta? Gosto de ver as palavras plenas de tinta a deslizar por entre as aspereza do papel, e de sentir o impacto, um impacto mínimo, é certo, mas que eu acho serem pequenas brechas a abrir-se no meu cérebro, a expandi-lo, a alongá-lo como se alonga a coluna vertebral. Também gosto de ver as letras no écran e ter a sensação de o que escrevo é escrita. É claro que para isso precisarei de encontrar outras palavras, como aquela que não encontro para o lugar de "gostar". Isto para começar. É preciso abrir brechas cada vez maiores.
28.9.10
segundo
27.9.10
noites frias
"A noite está fria". Numa esplanada sobre a Avenida percebe-se quanto a noite está fria. E ao sentir na pele o frio da noite, veio-me à ideia a Terra Estreita de manhã. Pensei na areia e nos reflexos na água, e pensei também na viagem de regresso, curta e dourada. Em vez que pensar nos dias de chuva que, tarde ou cedo, se aproximam, lembrei-me daquela espécie de felicidade passada entre o mar e o mapa. Não há só exaltação no acto de recordar. Há nele também ingratidão, como se os bons momentos do passado fossem responsáveis pelos momentos que queremos excluir do presente. Porém, tenha eu ou não razão, uma coisa é certa: o Verão já acabou.
24.9.10
23.9.10
22.9.10
no hall
O hall do teatro é um sítio agradável. Está fresco, mas não está frio, a luz é natural e artificial, e eu estou sentada numa cadeira e não tenho pressa em levantar-me. Está-se bem no átrio do teatro. É possível que lá fora ocorram, agora mesmo, mil e um dramas, dos quais eu poderei escrever dois, vá lá, três, por ano, se lá estivesse para os ver e ouvir, é possível que eu os pudesse escrever. Mas estou aqui sentada. E também os poderei escrever, penso. Não me inquieto. Eu sei o que são dramas. Mesmo que os visse na minha frente, em vez de os adivinhar pelos vidros das altas portadas, mesmo que os ouvisse directamente em vez de estar a ouvir a máquina de café, mesmo assim nada garantiria que os viesse a escrever, e já não digo auspiciosamente, digo segundo qualquer convenção. Não basta estar lá. Escrever, ainda que mal, dá trabalho.
20.9.10
lugares livres
É difícil estacionar naquele lugar. Por isso, ele, quando viu o lugar, disse, Este é meu, este não me vai escapar. E a partir do momento em que disse "este é meu", não havia outra hipótese, o lugar tinha de ser dele, tinha de estacionar exactamente ali - nem mais abaixo, nem mais acima, nem para um lado, nem para o outro, mas ali. Evidentemente que não contava com o pilarete. Estúpido é que ele não é. Se soubesse que estava ali o pilarete não tinha estacionado o carro exactamente ali, aliás, nem sequer teria dito, como disse, "este é meu", pela simples razão de que teria visto o pilarete em vez do lugar, estamos entendidos?
17.9.10
com amêndoa por cima
Um croissent. Com fiambre? Sem fiambre, faz favor. Com queijo? Um croissant, sem fiambre, sem queijo, sem manteiga, um croissent. E um croissent com creme? Daqueles que leva amêndoa por cima? Sim. 'Tá bem, um croissent com amêndoa por cima. Sai um croissant com creme. É daqueles que leva amêndoa por cima? Todos os croissents com creme levam amêndoa por cima. Todos? Isso é alguma lei? Hoje não está muito bem disposta, pois não?
16.9.10
15.9.10
14.9.10
13.9.10
10.9.10
saída de campo
Estava um homem de camisa branca sentado no muro antes do molhe. Estava virado para o mar. A camisa estava por fora das calças e os punhos estavam desabotoados. Isto era tudo o que eu via. Eu via-o dum sítio onde esperava um café tardio. Via-o a olhar para o mar, como um veleiro impaciente que aguarda uma decisão vinda de terra. Como se, a bordo, tudo estivesse há muito tempo pronto a zarpar. Por isso, naquele universo constituído por mim, pelo homem e pelo veleiro imaginário, nada nem ninguém, nem mesmo o homem, percebia porque é que tudo tinha de continuar como estava. O homem manteve-se ali parado, a olhar o mar, com as mãos apoiadas no muro, com o vento a entrar-lhe para dentro da camisa e a fazer dele a vela dum veleiro, uma vela branca, branca da cor da espuma que se desfazia e transformava o ar num mar de pequenos cristais. Provavelmente estes pensamentos foram a causa da minha distracção. Perdi o domínio da situação. A certa altura o homem levantou-se e foi-se embora. Levava as mãos nos bolsos e, de vez em quando, virava o olhar para o mar. Saíu da minha visão pelo lado direito. Prescindi de qualquer movimento panorâmico e perdi-o de vez. Tirei os headphones e fiquei ali, a ouvir a estranha canção do mar.
9.9.10
27.8.10
26.8.10
Tudo o que
Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, declarei em família que ia começar a escrever poesia
"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos"
Luís Filipe Parrado
"A Poesia em 2009"
25.8.10
laços de sangue
O Sr. Soares, talhante, é filho de Manuel Soares, talhante reformado, e de Ermelinda Soares, doméstica. O Sr. Soares é pai de Rui Manuel Soares, talhante, Ricardo Soares, aprendiz de talhante e Anabela Soares, caixa. O Sr. Soares mais a mulher, caixa, os pais e os filhos vivem num primeiro andar, direito e esquerdo, da Rua Morais Soares. O andar fica por cima do talho.
23.8.10
22.8.10
fruta da época
Os melões sorriem na vitrina do restaurante. Ao lado, as meloas, permeáveis, insinuam-se. As laranjas, mais abaixo, estão passivas e os quivis permanecem sorumbáticos. As maças, essas, resistem todo o ano.
20.8.10
lágrima
Telefonei a Castafiori. "Agora não", disse-me, "estou a pôr uma lágrima artificial." Desliguei cheia de culpa.
6.7.10
4.7.10
3.7.10
2.7.10
1.7.10
Subscrever:
Mensagens (Atom)
