22.7.08
20.7.08
NAPOLEÃO
O que é o mundo, ó soldados?
Este céu do norte;
Soldados, esta solidão
Que atravessamos
Sou eu.
Walter de La Mare
(1873-1956)
trad.:Cecília Rego Pinheiro
Sou eu:
Eu, esta neve incessante,Este céu do norte;
Soldados, esta solidão
Que atravessamos
Sou eu.
Walter de La Mare
(1873-1956)
trad.:Cecília Rego Pinheiro
18.7.08
dia (9) _ o dia em que o Vítor morreu
_ o Vítor gostava de viver_ também gostava dos seus amigos_ e de mulheres_ e de gatos _ e de câmaras de filmar _ o Vítor foi meu colega de escola e de trabalho_ e meu amigo inesquecível _ adeus, Vítor
DSCN8468© fatima ribeiro2008
17.7.08
16.7.08
15.7.08
13.7.08
declarações não-electrónicas (2)
'Não ando de autocarro', oiço com frequência.
Há pessoas que não gostam de ser confundidas. Era um desprestígio enorme, imagine-se, alguém dizer de alguém a alguém: '- Ontem vi B sair do 42'. E C: '- Não acredito. Tens a certeza?' Seguro, A diria: '- Infelizmente. E já não é a primeira vez. Aliás, até já o vi a sair do 18. '- Do 18?! Ena, pá, coitado do B. Ainda se fosse do 35.' '- O que é que tem o 35?', pergunta A. 'Nada, é um bocadinho melhor, sempre passa na Avenida de Roma. Porquê?' '- Por nada, eu não ando de autocarro, sabes bem que eu não ando de autocarro.' 'Olha lá, mas 'tás bem informado, para quem não anda de autocarro...' '- É pá, a Carris para mim é uma espécie de fétiche.' '- Mas o que é que isto tem a ver com sexo? Tu consegues meter sexo em tudo.'
Há pessoas que não gostam de ser confundidas. Era um desprestígio enorme, imagine-se, alguém dizer de alguém a alguém: '- Ontem vi B sair do 42'. E C: '- Não acredito. Tens a certeza?' Seguro, A diria: '- Infelizmente. E já não é a primeira vez. Aliás, até já o vi a sair do 18. '- Do 18?! Ena, pá, coitado do B. Ainda se fosse do 35.' '- O que é que tem o 35?', pergunta A. 'Nada, é um bocadinho melhor, sempre passa na Avenida de Roma. Porquê?' '- Por nada, eu não ando de autocarro, sabes bem que eu não ando de autocarro.' 'Olha lá, mas 'tás bem informado, para quem não anda de autocarro...' '- É pá, a Carris para mim é uma espécie de fétiche.' '- Mas o que é que isto tem a ver com sexo? Tu consegues meter sexo em tudo.'
12.7.08
9.7.08
8.7.08
6.7.08
LM
Com a excepção recente de um dia de publicidade, desde Novembro que não ponho os pés numa rodagem. Amanhã começo um filme, onde vou fazer anotação. Voltam os dias longos, as noites e os cafés curtos, sempre sem açúcar. Volta a sensação dos limites, voltam as barracas, voltam os palácios, volta o vento e as altas temperaturas, volta o ar da madrugada, volta o cinema, volta a minha vida. Um amor de verão. Esta noite não vou dormir quase nada. À bientôt.
a avioneta
'Um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo.' Sinceramente! Mas quem é que lá nos cafés Nicola conhece o mundo?! E com quem é que pensam que estão a falar? Eu já não tenho idade para inter-rails. E mais: quando tive também não fiz inter-rails nem meios inter-rails. A gente lá em Évora ia à piscina municipal, que tinha uma avioneta avariada no meio da relva e pronto, estava a viagem feita. Agora andar de mochila às costas...Eu levava uma sandes num saco de plástico e, antes de comer a sandes, fazia a piscina olímpica como quem atravessa o canal da Mancha, só que mais depressa. 'A viagem é o viajante', disse o nosso homem em Durban (não os cafés Nicola). Quem sou eu para o desmentir?
5.7.08
4.7.08
NÃO ME DEIXES
Porque partes, assim, - amor tão caro -
Se tenho em minhas mãos as tuas vestes?
Para onde diriges teu olhar?
Não lastimo que venhas cedo ou tarde,
Pois apenas é mágoa que haja alguém
Que ocupe, em teu amor, o meu lugar.
Meng Xiao
(751-814)
Trad.: Francisco de Carvalho e Rego
Rosa dos Ventos, Assírio&Alvim
Se tenho em minhas mãos as tuas vestes?
Para onde diriges teu olhar?
Não lastimo que venhas cedo ou tarde,
Pois apenas é mágoa que haja alguém
Que ocupe, em teu amor, o meu lugar.
Meng Xiao
(751-814)
Trad.: Francisco de Carvalho e Rego
Rosa dos Ventos, Assírio&Alvim
3.7.08
convite
Acabei de ligar a Castafiori. Estava evasiva. Estranho. Que se passará com Castafiori? Nada como uma imperial ao fim da tarde. Convidei-a. Aceitou. Não lhe disse que era para comer caracóis.
Já estou a ver a cara de enjoo. Só a palavra a indispõe. E onde? Num dos cafés do triângulo dourado, responderei. Mas isso são tascas com esplanadas e bandeiras portuguesas ao vento. Que enjoo. Cara Casfariori, esta é a minha rua, este é o meu mundo. Ela dir-me-á, já a descer as escadas, 'não vai começar com a ladainha neo-realista, pois não? Até parece que mora numa barraca.'
Calar-me-ei, então. Quando chegar ao café do Sr.Vic pedirei um prato de caracóis e uma imperial. Nessa altura ouvirei de novo a voz timbrada de Castafiori : 'Para mim, um chá de rosas.' Quantas vezes é preciso dizer-lhe, Castafiori, que no café do Sr.Vic não se serve chá de rosas?!
Já estou a ver a cara de enjoo. Só a palavra a indispõe. E onde? Num dos cafés do triângulo dourado, responderei. Mas isso são tascas com esplanadas e bandeiras portuguesas ao vento. Que enjoo. Cara Casfariori, esta é a minha rua, este é o meu mundo. Ela dir-me-á, já a descer as escadas, 'não vai começar com a ladainha neo-realista, pois não? Até parece que mora numa barraca.'
Calar-me-ei, então. Quando chegar ao café do Sr.Vic pedirei um prato de caracóis e uma imperial. Nessa altura ouvirei de novo a voz timbrada de Castafiori : 'Para mim, um chá de rosas.' Quantas vezes é preciso dizer-lhe, Castafiori, que no café do Sr.Vic não se serve chá de rosas?!
2.7.08
1.7.08
declarações não-electrónicas (1)
'Nunca como peixe congelado'
este é o género de coisas que as pessoas dizem depois de muito reflectirem (só pode ser)
30.6.08
chamem-lhe mania
Nada disto pode acontecer por acaso. Hoje a porra do pacotinho dizia: 'Um dia peço um desconto numa loja de trezentos'. Se não estão a procurar atingir-me, vou ali já venho. A mensagem estava assinada, vá lá ( um nome - Adriana Morgado - seguido de um número - 13/20 -, aposto que com qualquer intenção cabalística). Um pacotinho de autor, portanto. Não me faltava mais nada. E o pós modernismo? E a morte do autor? E aquele russo que está na América e que tem um inglês arrevesado e que não me lembro como se chama? Ao resto já me vou habituando: 'Hoje é o dia. Nicola. Encontros perfeitos'.
27.6.08
26.6.08
conspiração
Tudo isto me anda a irritar. Temos a filosofia de balcão dos cafés Nicola , temos a harmonia de cores na casa dos ricos, temos previsões de temperaturas de verão que, com a sorte com que ando, aposto que me vão apanhar quando estiver a trabalhar em exteriores durante o dia. Mas as coisas não páram aqui. Mas eu páro: bastam as duas primeiras para pensar em conspiração. O que aconteceu conta-se enquanto o diabo esfrega um olho. Então: não ponho açucar no café mas passei a reparar nas mensagens inscritas nos pacotinhos. Desconfio que começa a causar-me ansiedade esperar pelo café só por causa do raio dos pacotes. Ontem mal o homem, o portista, me pôs a bica à frente só tive olhos para o pacotinho amarelo que dizia: 'desejamos-lhe um óptimo café Nicola'. Estes tipos nunca acertam, pensei, que boca decepcionante esta de 'desejamos-lhe um óptimo café Nicola', admiração era escreverem 'desejamos-lhe um péssimo café Nicola', e virei o pacote. Ia-me dando uma coisa: o outro lado do pacote era preto! Acho que tenho razões para pensar em conspiração. Só por curiosidade, tinha escrito a letras azuis: 'momentos únicos'.
25.6.08
papel higiénico
Estive a trabalhar numa casa tão rica, tão rica que até a cor do papel higiénico contribuia para o ar de sofisticação que nos envolvia. Estou habituada aos sofás com pedgree, aos pinheiros e aos tufos de alfazema e salva, estou habituada às piscinas e televisores bang & olufsen, agora a papel higiénico preto é que não. Primeiro pensei que era para dar com a cor das paredes. Depois pensei melhor e evidentemente é para dar com outra cor. Uma casa assim é logo outra mentalidade.
18.6.08
record
Por causa do Euro 2008 a Ópera de Viena regista a pior temporada de sempre. O edifício fica muito perto da zona de fãs e os amantes da música terão receio da proximidade. É a explicação dada pelo 'Record' desta manhã. Seja como for, a crise está à vista: o último espectáculo teve apenas 79 por cento de ocupação contra os habituais 99 por cento.
7.6.08
séc. XI: poeta andaluz
Olho o céu sem fim
à espera de ver a estrela que tu vês
Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado
à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume
Enfrento os ventos
à espera que tragam uma mensagem tua
Vagueio sem destino
à espera de ouvir uma canção que fale de ti
Olho as mulheres que encontro sem outra intenção
que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos
Al-Thurthusi
trad: Jorge Sousa Braga
à espera de ver a estrela que tu vês
Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado
à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume
Enfrento os ventos
à espera que tragam uma mensagem tua
Vagueio sem destino
à espera de ouvir uma canção que fale de ti
Olho as mulheres que encontro sem outra intenção
que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos
Al-Thurthusi
trad: Jorge Sousa Braga
5.6.08
o lapso
Castafiori estava esquisita. Eu adoro espinafres e não compreendia porque é que ela não comia espinafres. Teria compreendido que em cada garfada não pusesse empenho comparável ao meu mas daí até praticamente não lhes tocar entrava para mim na ordem do incompreensível. Cheguei a pensar: lá está ela mais os seus caprichos de morgadinha mas, quem come consente, e nada disse a respeito de. Apenas: "mas coma um bocadinho" e mais à frente: "para lhe falar com franqueza não percebo como é que se pode não gostar de espinafres". Não descansei enquanto não levei a coisa ao detalhe estatístico: "não há semana que passe que eu não coma espinafres". A minha insistência começava a chatear? Talvez. Mas não em vão. Castafiori disse-me que não lhe faria bem comer espinafres. Nada bem, mesmo. Claro que me escandalizei de imediato. Indignei-me, inclusivamente. Mas os espinafres fazem mal a alguém ou a alguma coisa?! Castafiori foi obrigada a calar-me com a autoridade de quem está na posse de segredos insondáveis: "eu sei muito bem o que estou a dizer, conheço muito bem o meu corpo". Receei que qualquer pedido de explicações pusesse a reserva da privacidade em causa. Nada disse. Mas o silêncio é de ouro. Castafiori acabou por acrescentar: "Eu ouço o meu corpo." Como? Quando lancei a palavra fi-lo por puro tique coloquial, mais a pensar na viagem do dia seguinte do que no tema acidental da nossa conversa. "Eu ouço o meu corpo e gosto de o ouvir."
3.6.08
rive
Hoje à noite quando sair vou pôr Rive Gauche, o meu perfume preferido. Yves Saint Laurent morreu ontem.
31.5.08
bon voyage
Ontem passei pelo café onde pára a autoridade. Só lá estavam dois. A imperialzinha na mão é que não faltava. Só para chatear, comprei um magnum java. Armas desiguais, portanto. Tive que esperar pela noite para reequilibrar. Ao jantar, cuscuz com vinho Ermelinda. Quando eu me ri, viraram-se para mim e disseram: 'o vinho Ermelinda não é nada mau'. Duma coisa não há dúvidas: é um nome que não se esquece. Para além disso, capaz de deixar embaraçado qualquer restaurante. Uma pessoa chega ao Gambrinus e pede: empadão de perdiz. E para beber vinho Ermelinda. Vinho Ermelinda não temos.
É assim que a gente os apanha. A partir daqui é-me indiferente que para sobremesa possa escolher entre Eisben com choucroute, Crepes Suzette Flamejados ou Soufflé Rotschild. Resultado: despedi-me da dama de Xangai, que está de partida outra vez, com vinho Ermelinda. Pas chic mas já com saudades.
É assim que a gente os apanha. A partir daqui é-me indiferente que para sobremesa possa escolher entre Eisben com choucroute, Crepes Suzette Flamejados ou Soufflé Rotschild. Resultado: despedi-me da dama de Xangai, que está de partida outra vez, com vinho Ermelinda. Pas chic mas já com saudades.
30.5.08
títulos
Comecei a ler há duas semanas um estudo intitulado: "O LOGOS DA JURIDICIDADE SOB O FOGO CRUZADO DO ETHOS E DO PATHOS DA CONVERGÊNCIA COM A LITERATURA (LAW AS LITERATURE, LITERATURE AS LAW) À ANALOGIA COM UMA POIESIS-TECHNÉ DE REALIZAÇÃO (LAW AS MUSICAL AND DRAMATIC PERFOMANCE)". Ainda não passei do título.
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