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19.1.12

(e achas pouco?)

O amor só não cura o amor
(de resto cura tudo)

13.10.11

Outubro, ao rubro: manifestação, convocação

Seria mais fácil esperar pela eternidade
se houvesse alguma coisa para jantar

12.10.11

Outubro, ao rubro: Kafka, beijos e fantasmas

"Há muito que não lhe escrevo, Frau Milena, e mesmo hoje estou a escrever só em consequência de um incidente. Não tenho de me desculpar pelo meu silêncio, pois bem sabe como detesto cartas. Todas as desgraças da minha vida - não o afirmo para me queixar, mas sim para daí retirar uma lição de interesse mais geral - resultam, digamos, de cartas ou da possibilidade de as escrever. Nunca fui, por assim dizer, enganado pelos homens, mas pelas cartas sempre; e, na realidade, não só pelas cartas de outras pessoas, mas pelas minhas. No que me diz respeito, há aqui um desgosto pessoal sobre o qual nada mais direi, mas há também uma desgraça geral. A grande facilidade de escrever cartas deve ter introduzido no mundo - do ponto de vista puramente teórico - uma terrível desintegração das almas. É, de facto, uma relação com fantasmas, não só com o fantasma do destinatário, mas também com o nosso próprio fantasma, o qual cresce entre as linhas da carta que se escreve e, sobretudo, numa sequência de cartas onde uma corrobora a outra e a refere como testemunha. Como poderá ter surgido a ideia de que as pessoas conseguem comunicar umas com as outras através de cartas? Pode-se pensar numa pessoa distante, pode-se ir ter com uma pessoa que esteja próxima - tudo o mais está para além da força humana. Escrever cartas significa despirmo-nos diante dos fantasmas, e eles aguardam avidamente esse gesto. Beijos escritos não chegam ao destino, os fantasmas bebem-nos pelo caminho. É graças a este alimento abundante que eles se multiplicam enormemente. A humanidade sente-o, e luta contra ele; e para tentar eliminar o mais possível o elemnto fantástico entre as pessoas e criar uma comunicação natural, restaurando a paz das almas, inventou o caminho-de-ferro, o automóvel, o aeroplano. Mas isso já não serve de nada, pois estas são, evidentemente, invenções feitas no momento da queda. O adversário é de tal maneira mais calmo e mais forte: depois do serviço postal, ele inventou o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fios. Os fantasmas não morrerão à fome, mas nós, nós pereceremos."


(carta de Franz Kafka a Milena Jesenská; a carta continua); tradução de M. Frias Martins ("Canone Ocidental"- H. Bloom), que em nota diz ter-se socorrido da tradução inglesa de P.Boehm e da tradução francesa de A.Vialate

3.10.11

Outubro, ao rubro: início, aulas, ISTO

Que eu pudesse, enfim, dizer o que trago dentro de mim.
Gritar: gente, mentia-vos
Ao dizer que não tenho ISTO em mim,
Quando ISTO permanece cá de dia e de noite.
Embora, justamente graças a ISTO
Soube descrever as vossas cidades inflamáveis,
Os vossos breves amores e jogos desfazendo-se em pó,
Brincos, espelhos, uma alça que caía,
Cenas em quartos e em campos após a batalha.

A escrita era para mim estratégia de camuflagem,
De apagar vestígios. Porque não se gosta daqueles
Que aspiram o proibido.


Socorro-me dos rios nos quais nadava, dos lagos
Com uma passagem entre os juncais, do vale,
Onde o eco da cantiga é secundado pela luz do ocaso,
E confesso que os meus elogios extáticos da existência
Poderiam ser meros exercícios de estilo elevado,
Mas por baixo estava ISTO que não sou capaz de nomear.

ISTO é comparável aos pensamentos do desabrigado
Quando vai pela cidade gélida e estranha.

E ao instante em que o judeu acossado vê aproximarem-se
Os pesados capacetes dos gendarmes alemães.

ISTO revela-se também quando um príncipe vai à cidade
E vê o mundo real: a miséria, a doença, a velhice e a morte.

ISTO está igualmente no rosto petrificado de quem
Descobriu que foi para sempre abandonado.

E nas palavras do médico sobre a sentença sem recurso.

Porque ISTO significa o esbarrar contra o muro,
Sabendo que ele não cederá a quaisquer implorações nossas.





Czesław MIŁOSZ - Alguns Gostam de Poesia, Antologia - cavalo de fogo

27.9.11

setembro sem paciência: déficit, dívida, dependência

As dívidas sempre foram boas oportunidades de negócio. Neste início de século, as dívidas públicas são mesmo o grande negócio. Basta consultar as taxas de juro. A conversa sobre a "culpa" do estado social uma forma de sustentar o negócio. Basta consultar as taxas de juro.

12.9.11

setembro sem paciência: pós

"O pós-modernismo é muito bom porque é uma noite em que todos os gatos são pardos. Confesso que para mim ainda não saimos disso a que se chamou "a condição moderna". Ela corresponde justamente à dificuldade de encontrar mestres. Mas parece que há uma tendência do ser humano para os encontrar e há uma experiência de abandono. Abandono daquilo que nos poderia orientar sem ter de fazer muitas perguntas."

Maria Filomena Molder, lido em papel, mas onde?

31.8.11

agosto sob influência: claude monet




"Vamos, Monet, encare a realidade de uma vez para sempre. Imponha uma disciplina humana à sua inteligência. Convença-se de que há sonhos a que uma alma forte não pode aspirar porque são irrealizáveis. Não podemos ir além do mundo sensível, com os diabos!, e aquilo que você vê e sente é já um domínio suficientemente vasto e infinito."

Octave Mirbeau,  escritor, crítico, contemporâneo e admirador de Claude Monet, citado por Maurice Sérullaz (Enciclopédia do Impressionismo)

29.8.11

agosto sob influência: marguerite duras

A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecêmo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos cães. É a vulgaridade massiva, desesperante, da sociedade. A dor, é Cristo também e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias e é também o mais violento da felicidade. Sempre, acredito nisso.
Marguerite Duras, "Écrire"

24.8.11

agosto sob influência: francis bacon

- Eu não desenho. Começo por fazer toda a espécie de manchas. Aguardo aquilo que se chama o "acidente": a mancha a partir da qual o quadro vai surgir. A mancha é o acidente. Mas se nos agarramos ao acidente, se cremos entender o acidente, estaremos ainda a fazer ilustração, pois a mancha assemelha-se sempre a qualquer coisa.
"Não se pode querer entender o acidente. Se pudéssemos compreendê-lo, compreenderíamos igualmente o modo como iríamos agir. Ora esse modo como vamos agir é o imprevisto, que é sempre incompreensível: it's basically the technical imagination, ou seja, "a imaginação técnica". Tenho procurado muito como chamar a este modo como vamos agir. Nunca consegui encontrar melhores termos que esses: imaginação técnica.
"Compreende, o motivo é sempre o mesmo. É a modificação operada pela imaginação técnica que pode fazer com que o motivo "se transforme" ao nível do sistema nervoso pessoal.
"Imagine cenas extraordinárias, isso não é absolutamente nada importante do ponto de vista da pintura, isso não é imaginação. A verdadeira imaginaçãoé construída pela imaginação técnica. O resto é a imaginação imaginária e que não conduz a lado nenhum.
"É por essa razão que eu não consigo ler Sade. Desagrada-me completamente, aborrece-me. O mesmo acontece com alguns escritores mundialmente conhecidos, cujas obras eu já não consigo ler. Limitam-se a escrever coisas que não passam de histórias sensacionais. Mas desconhecem a sensação técnica.
"É sempre com os meios técnicos que se encontram as verdadeiras saídas. A imaginação técnica é o instinto que trabalha fora do âmbito das leis para, em conjunto com a força da Natureza, transformar o motivo ao nível do sistema nervoso.
"Há alguns jovens pintores que apanham um bocado de terra e vão, em seguida, expô-lo numa galeria de pintura. Isso é um disparate e denuncia a falta de imaginação técnica. É interessante que sintam o desejo de mudar o motivo, ao ponto de virem a fazer isto: arrancar um bocado de terra e colocá-lo num expositor. Mas o que seria necessário é que a "força" com que extraem a terra se "modificasse". Que o tal pedaço de terra seja arrancado, sim, mas arrancado ao seu sistema pessoal e trabalhado com a sua imaginação técnica.

entrevista com Marguerite Duras, La Quinzaine Littéraire, 1981

23.8.11

agosto sob influência: thomas bernhard (bis)

PORQUÊ ESTA OBSCURIDADE?
Porquê esta obscuridade, sempre esta obscuridade total nos meus textos? A explicação é simples:
Nos meus textos tudo é artificial, quer dizer que todas as personagens, os factos, os incidentes se representam num palco, e o palco está totalmente mergulhado nas trevas. As personagens que aparecem no espaço quadrado da cena reconhecem-se melhor nos seus contornos do que sob uma iluminação normal, como é o caso na prosa ordinária. Na escuridão, tudo se torna claro. Não só as aparições, o que se obtém da imagem, não, também a linguagem. Há que imaginar páginas totalmente negras: a palavra fica mais clara. Daí a sua nitidez ou a sua nitidez redobrada. No começo, servi-me deste meio artificial. Quando se abre um dos meus livros, acontece o seguinte: é preciso imaginar que se está no teatro, ao virar da primeira página sobe um pano, aparece o título, escuridão completa, e desse fundo, dessa escuridão, surgem as palavras que se transformam em processos de natureza tanto interior como exterior, e que, em virtude desse mesmo carácter artificial, artificiais se tornam com redobrada nitidez.

Três Dias (auto-entrevista), 1971, monólogo de Thomas Bernhard num banco de jardim, arredores de Hamburgo, 1970, filmado por Ferry Rodax; em 1971 publicação no Der Italianer

18.8.11

agosto sob influência: thomas bernhard


O FRIO AUMENTA COM A CLARIDADE (1965)
"Respeitável público:
Não consigo achar graça ao vosso conto dos Músicos de Bremen, não quero contar nada, não quero cantar, não quero prégar, mas uma coisa é certa: já não é tempo de contos, sejam sobre cidades, sobre Estados, sejam científicos ou até mesmo filosóficos. Acabou-se o mundo dos espíritos. O próprio universo deixou de ser um conto. A Europa, a mais bela, está morta; eis a verdade e a realidade. A realidade, tal como a verdade, não é um conto, e a verdade nunca foi um conto. Há cinquenta anos a Europa ainda era um verdadeiro conto de fadas. Nos dias de hoje, muitos ainda vivem nesse mundo de conto de fadas, mas esses vivem num mundo morto, e aliás trata-se de mortos. Aquele que não está morto vive, e não nos contos; esse não é um conto.
(...) Viver sem contos de fadas é mais difícil, por isso é tão difícil viver no século XX. (…) Estamos no território mais espantoso de toda a História. Estamos aterrados, e aterrados enquanto material monstruoso do homem novo e do conhecimento novo da natureza, da renovação da natureza. Durante este meio século, todos nós não fomos mais do que uma grande dor; esta dor constitui-nos; esta dor é agora o nosso estado de espírito. (...)
(...) Agora colocamos muito alto as nossas exigências, que nunca nos parecem suficientemente elevadas. Nenhuma época colocou tão alto as suas exigências como a nossa; existimos já na loucura das grandezas; mas como sabemos que não podemos cair nem morrer de frio, não temos dúvidas em fazer o que fazemos. (...)
(...) Conhecemos agora as leis da natureza, as Altas Leis infinitas da Natureza, e podemos estudá-las na realidade e de verdade. Já não estamos reduzidos a hipóteses. Quando olhamos a natureza já não vemos fantasmas. (...) Tudo será claro, de uma claridade cada vez mais alta e sempre mais profunda, e tudo será frio, de um frio cada vez mais espantoso. A impressão de um dia sempre claro e sempre frio é o que nos reserva o futuro.
Agradeço a vossa atenção."

do discurso pronunciado em Bremen na entrega de um prémio literário; Thomas Bernhard, escritor de língua alemã; austríaco, nasce na Holanda em 1931, morreu em 1989; legou-nos uma obra extensa e dura, da qual só conheço bocadinhos. 

24.3.10

pas de poème

Pas de poème sans accident, pas de poème qui ne s'ouvre comme une blessure, mais qui ne soit aussi blessant. Tu apelleras poème une incantation silencieuse, la blessure aphone que de toi je désire apprendre par coeur.

Jacques Derrida, "Che cos'è la poesia?"
citado em "Século de Ouro, antologia da poesia portuguesa do século XX"

24.2.10

mesmo ciclo

se recomeçar for o último estádio do ciclo evolutivo, então eu estou sempre no mesmo sítio

1.1.10

a arte do romance

"O que é verdade é que ao passear-me sobre os downs, o outro dia, elaborei um longo ensaio - e pareceu-me, naquele momento, que muito profundo -, sobre a arte de escrever um romance, como ter a certeza de que não é mais do que uma rebentação na areia, uma evasão, ou outra coisa diferente...Agora, já não consigo recordar-me muito bem. Creio que o essencial, quando se começa um romance, não é sentir que se é capaz de escrevê-lo mas que ele está lá, do outro lado do abismo que as palavras são impotentes para transpor: que não se poderia arrancá-lo a nós mesmos, a não ser pagando o preço de uma angústia infinita. Quando me sento à secretária para escrever um artigo, sei que tenho à minha disposição uma rede de palavras que, dentro de uma hora, conseguirá prender o assunto nas suas malhas. Mas, como eu teimo em dizer, para ser bom, um romance precisa de dar a impressão, mesmo antes de ser iniciado, que nunca chegará a ser escrito: que não se pode senão vê-lo; de tal maneira que, durante nove meses, se viva no desespero e que seja apenas quando se esqueceu tudo o que se queria fazer, que o livro se torne, enfim, tolerável. Garanto-te que, antes de escritos, todos os meus livros eram de primeira água."

Virgínia Woolf
Cartas Íntimas a Vita Sackeville-West

7.8.09

"A GUERRA DOS BALCÃS"

Um homem velho e doente seguia por um caminho fora. Quatro rapazes assaltaram-no e despojaram-no dos seus haveres. O velho seguiu contristado o seu caminho. Mas no cruzamento seguinte viu, com grande espanto seu, que três dos ladrões assaltavam o quarto para lhe tirarem o produto do roubo. Este, no entanto, caíu no chão durante a refrega. Cheio de alegria, o velho juntou-o e apressou-se a sair dali. No entanto, foi detido na cidade mais próxima e levado à presença do juíz. Os quatro rapazes lá estavam e apresentaram queixa contra ele, agora de novo unidos.
O juíz, porém, decidiu da seguinte maneira:
O velho tinha de devolver todos os seus bens aos rapazes. "Caso contrário", disse o sábio e justo juíz, "os quatro indivíduos ali presentes poderiam causar distúrbios no país."

BERTOLD BRECHT
HISTÓRIAS DE ALMANAQUE

27.2.09

Otar Iosseliani

"P: Disse numa entrevista à Positif que o cinema o ajudou a ter uma consciência. Em que sentido?
R: Não foi isso que eu disse. Nesse tempo pensava que o único instrumento disponível era a consciência, que devíamos usar como uma ferramenta de trabalho. Algo como um bom Stradivarius, que tem que ser mantido com grande cuidado. Percebe-se depressa se o instrumento é mau, se soa fora de tom. O cinema não pode ajudar a manter este instrumento, e à medida que vai sendo utilizado o instrumento deteriora-se a pouco e pouco. A consciência é algo que temos de estar sempre a testar; de outra maneira não sabemos se a temos ou não. Uma das maneiras de testar a consciência é ter uma profissão que nos incite a perdê-la. O cinema é um ofício muito perigoso para a consciência. É como aquilo que aconteceu a Paganini quando teve que tocar só com uma corda. As outras tinham sido cosidas e, durante o concerto, rebentaram. Paganini continuou a tocar só com uma corda. Somos pressionados rumo ao conformismo, à deformação das nossas ideias e à sua adaptação às circunstâncias. às vezes somos obrigados, por falta de tempo, a negligenciar a clareza da linguagem, e tudo isto vai comendo a consciência. A pouco e pouco transformamo-nos num maestro preguiçoso, inchado de orgulho, altivo. E a nossa consciência diminui. É um bom exame, é como uma batalha constante. O cinema exige qualidades cavalheirescas."
"Otar Iosseliani"
Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema

16.1.09

sur le cinématographe (5)

Fais apparaître ce qui sans toi ne serait peut-être jamais vu.
Robert Bresson

15.1.09

sur le cinématographe (4)

Une chose ratée, si tu la changes de place, peut être une chose réussie.
Robert Bresson

14.1.09

sur le cinématographe (3)

Elle (fragmentation) est indispensable si on ne veut pas tomber dans la REPRÉSENTATION.
Voir les êtres et les choses dans leurs parties séparables. Isoler ces parties. Les rendre indépendentes afin de leur donner une nouvelle dépendence.
Robert Bresson

13.1.09

sur le cinématographe (2)

Qui peut avec le moins peut avec le plus. Qui peut avec le plus ne peut pas forcément avec le moins.
Robert Bresson